sábado, 12 de janeiro de 2008

Ego

Parte 4

Após desligar o telefone, Júlia pensou no quanto suas técnicas anti-românticas, como ela gostava de chamá-las, eram cruéis com ela mesma. Fizera um esforço sobre-humano para não puxar Pedro pelo colarinho e beijá-lo enlouquecidamente. Ou ainda intimá-lo a entrar e passar a noite toda com ele.
O único problema era o dia seguinte. Os homens com os quais estivera sempre ligavam compulsivamente nos dias posteriores, com uma ânsia irritante por uma nova saída, falavam em cinema, pipoca, teatro... coisas que ela adorava, mas que eram típicos programas de namoradinhos.
O que ela queria mesmo era encontrar um homem que a surpreendesse, que passasse dias sem ligar e que num encontro ocasional numa loja de conveniências dissesse algo como: "olá, moça... quanto tempo, não? Dê-me novamente seu número de celular, eu o perdi. Podíamos marcar de sair qualquer dia desses. Que tal?" Talvez por esse tipo de homem ela se encantasse, se perdesse. Tivera a desventura de nunca cruzar com um desses.
Não, ela não gostava de ser maltratada, não era nada disso. Ela apenas não gostava de senti-los tão à mão. A dificuldade a fascinava.
***
Pedro olhava o relógio, que acusava alta madrugada, mas não conseguia dormir. Ficara intrigado com a mudança de postura de Júlia. Gostava de mulheres complicadas. Sempre fora seu fraco. Imaginava-as como labirintos, que têm em seu centro um prêmio inestimável. Mas e depois do prêmio alcançado? Essa era a questão... as mulheres com quem estivera até então sempre chegavam a um ponto em que pareciam não ter mais nada a oferecer. O prêmio já fora ganho. C'est fini.
Resolveu não ligar nos próximos dias. Talvez fosse o melhor a fazer. Quem sabe? Talvez ela o procurasse... Devia estar acostumada a ser procurada sempre. Queria fazer diferente.
***
- Faz três dias que nós saímos e ele não ligou. O que achas que isso quer dizer?
- Basicamente duas coisas: ou ele não gostou de ti, ou ele tá fazendo tipo.
- Bom, ele me beijou... isso aumenta as chances de ele estar fazendo tipo?
- Não exatamente. A conta, por favor.
- E o que eu faço?
- Não sei, mas se cuide, minha amiga... nunca te vi insegura assim.
- É, nem eu... Talvez ele seja o cara que eu procurei. Aquele que não fica à minha disposição, como os outros. O que me deixa fazer as coisas, não pensa em tudo.
- E o que você vai fazer quanto a isso?
- Eu o quero. Vou procurar nossos amigos alcoviteiros em comum e descobrir a rotina dele, os lugares que costuma ir e fabricarei um encontro ocasional.
- Muito bom. Agora vamos que está ficando tarde e eu tenho que passar lá no trabalho ainda pra pegar uns papéis.
- Ok. Vamos indo.
***
Ao chegar em casa, Júlia pega a agenda de telefones e marca os nomes das pessoas que podem ajudá-la. Olha o relógio e decide ligar no dia seguinte, já estava tarde e ela ainda precisava elaborar o texto que usaria para justificar seu interesse.
A noite seria longa.
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PS.: Talvez eu não escreva aqui por umas duas semanas. Ou não, vai saber. Mas estarei bem enrolada até o final do mês. Então, caso eu não consiga mesmo aparecer, fica um abraço a todos os que aparecem por aqui freqüente e esporadicamente.

11 comentários:

Luca disse...

Ai, eu sou obcecada pelas incertezas e surpresas que pairam o teu texto.
Me bateu uma baita ansiedade!
Ai, ai

Edu Guimarães disse...

A Júlia só me faz pensar como vocês, mulheres, são difíceis de agradar. Difíceis e fascinantes.

Só espero que essa história termine bem. Afinal, o que há de mal em histórias que terminam bem?

Beijo pra você Jô e boa sorte na sua empreitada!

Luca disse...

Voltei, Jô! Voltei para ler e compreender o quê antecede esta parte.

Beijoooooo

Fê Probst disse...

é justamente aquele que não nos quer que nos aumenta o interesse.

F. S. Júnior disse...

a trama tá ficando bem interessante... é incrível como a rotina quebrada muda tanto as coisas... por vezes, até nos leva ao erro, ao engano...rs

luizg. disse...

como um bom vinho, o tempo só lhe faz bem...

seu texto melhora exponencialmente a medida que continua escrevendo...

adoro!

Luca disse...

Li tuuuuuuuuudo, menina!
Como não ler, com um texto tão bom?
Ele fica até pequenininho!!
Excelente, viu?!?

Beijoooooooooooooo

(resolve logo as tuas coisas e volta!)

Edgar Sollers disse...

De repente me deu uma pane, e não consigo entender mais nada de relacionamentos. E leio seu texto, continuo entendendo menos ainda. Acho que todo mundo quer, na verdade, o contrário daquilo que tem, e quando consegue, o oposto. Então para se conseguir algo, tem que se fingir não querê-lo. É isso? Desnrole-se, e daqui a duas semanas diga se o que eu escrevi tem sentido. Ou não.

beijo

Iara disse...

adorei a historia! nao vejo a hora da continuaçao... rs
eu ja disse la no meu blog que amor eh trabalho, viu?
me senti como a julia agora... eta como mulher eh complicada mesmo, pq se fascina por homem dificil? o prazer do misterio talvez faz que nos os superestime-os. bobagens do coraçao (e do cerebro).
vc descreve tao deliciosamente bem essas cousas.
bjos adoroo isso aqui! volta logo!

FINA FLOR disse...

mulheres!!! como é que gostaria de ser surpreendida se controla tudo? rsrsrs*

beijocas e bons ventos nesse começo de ano, querida

MM.

Morganna disse...

surpreender e ser surpreendida tem um valor indizível.

:**