
Ao descobrir as incontáveis traições, uma após outra, sem cuidado, lealdade ou pudor, ela tomou uma decisão: pôs todas as recordações do amor - com as bobagens, tolices e pieguices em anexo - que vivera sozinha, chamou um táxi e deu ao motorista o endereço do cemitério mais próximo. Em um ponto qualquer, entre uma sepultura e outra, cava com as próprias mãos a cova rasa, embora mais funda do que merecia, pensa. Deposita a caixa na cova. Suspira. Cobre-a. Na lápide improvisada com madeira e carvão, o epitáfio sofrido: aqui jaz um amor que jamais existiu. Deposita as rosas vermelhas sobre o jazigo, levanta-se, lança um sorriso perturbado acompanhado de um olhar perdido e começa a se dirigir ao portão principal. Pára, entretanto. Volta-se segurando as saias. Dá alguns passos em direção à cova e cospe sobre ela. Gargalha. Era, enfim, sua carta de alforria.
25 comentários:
Algumas vezes a libertação é ardua, sofrida, e realmente precisamos enterrá-la, não é? Mas nunca é fácil. E mesmo depois de enterrada, alguns fantasmas rondam nossas camas ao anoitecer.
Lindo, como sempre. Me ensina a ser conciso!?! Beijão!
Definiria a sucinta mensagem como uma das mais longas de minha vida. Paradoxal? Talvez... A verdade é que em poucas palavras - e bem seletas - você conseguiu, com primor, desenterrar memórias já adormecidas em mim. Parabéns pelo blog. Belo.
=)
Isso é que enterrar o passado!
O problema é que, mesmo enterrando, cuspindo e dando as costas, nem sempre as lembranças morrem junto.
E elas podem doer mais do que qualquer "prova material".
***
Casamento é uma coisa que não está mesmo nos meus planos.
Eu vejo tantos motivos para não fazer isso e do outro lado, vejo só um para fazer: se eu me apaixonar loucamente.
Por isso é bom que eu guarde meus diários e mantenha os arquivos do Blog. Quando o tal príncipe encantado aparecer querendo me carregar com ele no cavalo branco, eu dou uma olhadinha nas coisas que eu escrevi e me lembro que é muito melhor ele morar no castelo dele e eu no meu. rsrs
Bjs
Eu acho complicado essas coisas, não condeno a atitude dela de ter enterrado aquele amor.
Mas pq não ficar com a única coisa que prestou?
O amor, mesmo quando mentiroso, não deixa de ser bonito.
Tua maestria com as palavras e com as idéias é de deixar qualquer um de queixo caído. Adoro. És precisa e impressionante...
Já o enterro e a cusparada eu entendo que são não propriamente para o amor, mas para as almas que se apegam exageradamente a ele. Enfim, cada um tem a sua interpretação, eis uma das coisas que tornam bela a arte.
Abraços e saudades de ti!...
Jô, cada vez que passo por aqui fico espantada com sua sensibilidade em descrever algo tão verdadeiro. Apesar de triste, esse fragmento me transpassou beleza.
Jô, fascinante. Qdo eu crescer, quero escrever tão bem quanto você.
Os sentimentos podem ser enterrados, mas o que eles provocaram são detalhados em memórias, sobre as quais não há alforria.
Beijoooooooo, Jô.
precisando fazer igaul a ela.
Adorei a imagem do texto.
bjus
Não! Não é algo que me entristece. As lembranças sempre tiveram, em mim, um lugar bem restrito... Quanto ao seu comentário, concordo no que diz respeito às dores que sentimos ao cortar nossas raízes. Elas são a base de nosso suporte.
Bjo, Jô!
E quando você descobre que o amor que você pensou ter vivido talvez não tenha passado de ilusão? QUero a minha alforria também...
Já comentei, mas pensei algo aqui...
As pessoas têm um problema sério, que é achar que 'não foi amor', foi ilusão, foi falso, foi erro, por ter acabado.
Não sei se existe amor que dure 50, 60 anos, mas dizer que foi tempo perdido, que não vleu a pena, é muito cruel.
Se houve um momento bom, um dia bom, então valeu a pena! Isso pode durar uma semana, cinco meses, 30 anos.
É preciso ter cuidado em como tratar o amor, qdo ele acaba.
cartas de alforrias necessárias.
e ei, tu tava nos meus favoritos e eu nem sabia. cheguei ontem de viagem e quando tava dando uma arrumada aqui, te vi lá, nos meus favoritos-blogs. ^^"
beijo, beijo! :*
Muita sensibilidade, intensidade e beleza, Jô.
Você é incrível!
Existem coisas que precisam ficar guardadas em nossa lembrança, e só. Coisas que em algum momento precisam ser enterradas.
Muito Bom!
Beijos. =]
Cheguei aos seus fragmentos por acaso, li seu post e imediatamente me apaixonei pelo que escreves... li vários dos posts antigos... todos muito bons, singelos, por vezes sedutores. As vezes precisamos "enterrar" o que nos faz sofrer, para que possamos aceitar que teve um fim e possamos então recordar com melhores olhos e encontrar um pouco de alegria!! Espero que os posts sejam apenas ficção... embora tenha que dizer, se temos que sofrer, ao menos nos traga algo de bom!
Concordo a pesquisa foi tua.Mas tu acredita que uma outra amiga vai ter q refazer a mono só porque uma professora da banca não participou da pesquisa? Ficamos revoltados!
Ai, ai.
Beijoooooooo
Que estranho: ia escrever algo bem parecido considerando afortunado aquele que tem, ao menos, a dignindade de escarrar no antigo amor.
Pior do que matar um amor, é matar um amor que não existiu.
a cuspida foi o melhor... a cena ficou demais... ela com as saias sustentadas para melhor correr e com toda desenvoltura, o cuspe, o desprezo, o adeus!
é como se ele tivesse enterrado ali...
escrevi um conto parecido com esse um vez.
A diferença é que ela matava ELE.
ahahahaha
Muito bom!!!!
um beijo, querida.
ps: Amanhã tem Falópio, apareça!
Cartas são sempre um símbolo forte do amor. Hoje perdidas nesse tempo de e-mails sem cheiro, sem as marcas daquele ou daquela que escreve.Já as usei muito para exprimir o que sentia e até o que não senti. Mesmo o que não senti materializou-se naquelas palavras, repetidas por séculos na boca daqueles que tiveram a sorte de sentir um amor, mesmo que mentiroso.
Bom texto, autora.
A) Leitor.
Concordo sobre as cartas, exatamente por isso, quando se quer tripudiar, nada mais simbólico que queimar, rasgar, enterrar as cartas. E pra mim a internet não anula não, só quando a gente deixa. Eu escrevo cartas sempre e recebo tbm, até com mto mais frequência do que emails.
Quanto ao amor... se é mentiroso ou não, acho que depois que acaba não importa mto não.
Até, moço.
É, um amor finado, às vezes, nem como lembrança vale. Já cartas são vestígios de pessoas que só existiram no momento da criação daquelas palavras e que ali deixaram um bom pedaço de sua essência, preciosa essência. Não me desapego fácil delas, não as enterraria, muito menos poria fogo, tampouco salivaria sobre elas, embora admire tal façanha, como exercício da crueldade e do desprezo, sentimentos tão humanos quanto o amor e a compaixão. Eu, um sentimental, jamais conseguiria. Também não tenho nada contra a rede mundial de computadores, mas adoro cartas, sempre gostei.
Usas o infame recurso do Orkut? =]
h) Leitor.
Te confesso que, apesar do meu apego às cartas, já profanei algumas e me desfiz delas. Hoje não sei se faria de novo, provavelmente não. Entendo como memória, por piores que sejam as lembranças que elas tragam, é um registro de ao menos momentos de verdade (espera-se. rs).
E sim, estou no orkut. :P E quem não está? É uma forma eficiente e rápida de comunicação, não?
Eu não estou. Espio o Orkut alheio de quando em vez, um ato vergonhoso, de certo.=] Ainda não achei o teu. E cartas doem no peito e nunca são falsas. Não têm relação, necessariamente, com seus criadores e sim com o que é dito. (eu acredito na palavra como coisa materializada, com vida própria, história pessoal e outras maluquices =P).
a) leitor
P.S.: conversas longas demais para comentários em um blog. espero que entenda minha falta de concisão. =]
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