domingo, 24 de fevereiro de 2008

Paredes imaginárias


Fora educada para ser uma lady. Pernas cruzadas ao sentar. Guardanapo no colo. Movimentos leves e graciosos. Sem risadas extravagantes... Sempre achara tudo aquilo um tédio e reprimia os bocejos que aqueles jantares monótonos lhe provocavam. O que queria mesmo era se atirar em queda livre sem pára-quedas. Jogar-se nos braços da luxúria sem preocupações com a etiqueta. Amar, amar perdidamente como Florbela, ainda que com a tristeza que lhe é peculiar. Ou principalmente pela tristeza. Dançou pelo quarto como uma plebéia, simulando um par alto e robusto a guiá-la. Queria ter a opção de dois caminhos como Chapeuzinho Vermelho, escolheria, por certo, o das flores. Ou ainda adormecer por cem anos, como a outra. Tranças iguais as de Rapunzel seriam úteis para uma fuga daquelas paredes cinza-masmorra. Desceu à praia. Mirou-se na infinitude da paisagem. E imaginou quão imensa era também sua insatisfação, sua dissimulação. Voltou para casa. O jantar estava servido. Tinham visitas.
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O Vicente e a J.S., me deram o Selo Astrobaldo de Qualidade: Blog Recomendado. Obrigada, queridos.
Eu indico para o selo:
- Pushoverboy, do Bloco de Notas;
- Mila, do Caixa de Sapato;
- Jr., do Gamella;
- Gabriela, do Ma Passion Rouge; e

14 comentários:

Luca disse...

Desprisionar-se das paredes, das etiquetas, daquilo que nos impede de sermos o quê há, nem que seja por um breve momento......

Beijooooo

FINA FLOR disse...

é por essas e por outras que toda menina precisa de um quarto rosa para chamar de seu :o)

beijos, querida e boa semana,

MM.

Juliana Caribé disse...

Resignada, ela não ousava libertar sua voz. Ou não lembrava-se de. Acostumara-se àquela vida de vícios e rótulos. Era viciada em não conhecer-se. Em não se deixar conhecer. E já nem sabia se sofria, tamanha era a rotina. Mantinha sempre um sorriso nos lábios, mesmo que os olhos implodissem, num pedido mudo e desesperado de si mesma. Não podia demonstrar. Precisava manter a cabeça erguida, a coluna ereta, o coração seco.

(mesmo que, às vezes, ela saísse à chuva, só para ver se conseguia encharcar a alma.)

Lindo, Jô!

Lúcia disse...

Ah, a infinitude da paisagem contrastando com todas as regras sociais em que nos encaixotam à força... Não dá, às vezes, uma vontade imensa de se jogar nesse mar e se perder de tudo, até da gente mesma?


Voltei moça! Enfim meus pedidos foram misericodiosamente atendidos e a internet parece estar funcionando razoavelmente outra vez... te aguardo lá pro café com biscoitos!

Beijo estalado

Proibida disse...

Menina, adorei o comentário lá no blog. rsrsrs Perfeito!

Ah, seu texto tá ótimo, como sempre! Beijo

Johny Farias disse...

São esses os modelos que a sociedade cria, tudo bunitinho e normal tudo caladinho né?
Um dia ela se livra disso, quebra as correntes e se torna aquilo que é. Por coincidência o meu último texto se desenvolve dentro disso que escreveu, pois a contracultura nasceu por causa disso também, pois os jovens já não queriam ser aquilo que a sociedade propunha que fossem.
Sem dúvida Jô, a nostalgia por vezes e bela, quem me dera...

Obrigado pelo Selo :)

Beijo's

F. S. Júnior disse...

suas personagens as vezes sofrem tanto...rs

adorei o selo... brigadão e parabéns...

Mila disse...

Por isso que vou criar minha filha para ser educada, mas livre.

Obrigada pelo selo!
Vou criar vergonha na cara e postar junto com os outros que eu ando devendo. rs

Beijo

Gabriela. disse...

UAU

Vim aqui te deixar um sussurro e ganho esses dois presentes.

Ai moça, obrigada.

luma disse...

Jô, obrigada pela simpática visita no Luz!
Nós mulheres temos dois universos, um externo e outro interno que não se entendem na maioria das vezes.
Beijus

Bárbara Prianti disse...

"Fora educada pra ser uma lady.Pernas cruzadas ao sentar.Guardanapo no colo.Movimentos leves e graciosos.Sem risadas extravagantes..."
Nossa...
Parece que você disse metade da minha vida só nesse trecho.
Infelizmente me sinto assim, sabe como é família, tradição e etc.
Olha adorei o seu poema, perfeito.
Estás de parabéns!
Tu tens muito talento, nunca pare de escrever...
Um abraço.
Bárbara Prianti.

Will disse...

Tem uma música do Cordel do fogo encantado(não sei conhece???) que diz: Mas gritou no jantar "não quero nada! Nada.".

Seu texto é mto bom...mostra o "Dance conforme a música" que estamos sujeitos...

Parabêns

Bárbara (B.) disse...

Será que existe esse amar perdidamente sem a tal tristeza que lhe acompanha?

Tenho lá minhas dúvidas.
Viver de aparências também é uma merda.

Ai, ai.

Beijo, linda.

Will disse...

Poww seus texto são muito bons. Gosto de texto vivos como esse, que te coloca dentro da cena que está descrevendo.

bjoss