quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

A Insustentável Leveza do Ser

Lendo A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, dentre tantas reflexões magníficas, tocantes e de profunda poesia, eis que encontro um trecho fascinante sobre o ato de escrever. Quem escreve sabe da dificuldade que é teorizar sobre isso. Kundera, como o fez em todo o romance, se mostrou um gênio ao tratar desse assunto.

"[...] os personagens não nascem de um corpo materno, como os seres vivos, mas de uma situação, uma frase, uma metáfora que contém em embrião uma possibilidade humana fundamental que o autor imagina não ter sido ainda descoberta, ou sobre a qual nada ainda foi dito de essencial.

Mas não se diz sempre que o autor só pode falar de si mesmo?

Olhar o pátio com angústia e não conseguir tomar uma decisão; [...] trair e não poder parar na estrada tão bela das traições [...]: eu próprio conheci e vivi todas essas situações; de nenhuma delas, no entanto, saiu o personagem que sou, eu mesmo, no meu curriculum vitae. Os personagens de meu romance são minhas próprias possibilidades que não foram realizadas. É o que me faz amá-los todos e temê-los ao mesmo tempo. Uns e outros atravessaram a fronteira que eles ultrapassaram (fronteira para além da qual termina o meu eu). Do outro lado começa o mistério que meu romance interroga. O romance não é uma confissão do autor, mas uma exploração do que é a vida humana, na armadilha em que se transformou o mundo."
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Conselho: quem ainda não leu, leia. Restam menos de cem páginas para que eu acabe a leitura e já me sinto uma viúva em luto fechado pelos personagens apaixonantes e pelo narrador mais reflexivo que já conheci.

*****
Ouvindo Valsa Brasileira, na voz de Luiz Melodia.

12 comentários:

FINA FLOR disse...

fiquei com vontade de ler de novo o livro dele, pois o fiz muito novinha, aos 17 anos e nem me lembro muita coisa.

risíveis amores, dele, tbm vale a pena.

beijos, querida Jô

MM.

ps: adorei as especulações dele sobre o ato de escrever

Johny Farias disse...

Escrever bem não é coisa para rélis
mortais, acho que é um dom que poucos tem, ainda mais hoje em dia.

Pelo menos pra mim é uma forma de
"vomitar" aquilo que sinto, sendo em analogias, poemas...sempre
tem algo muito íntimo nisso.

Beijo's Jô

Juliana Caribé disse...

Ainda nao li, mas providenciarei...
Beijos.

Edu Guimarães disse...

É também li há muito tempo. Tem livros que merecem ser relidos, este é um.

Gabriela. disse...

Ganhei do Sollers este livro em mil quinhentos e me esqueci. Foi uma das coisas mais perfeitas que ganhei. Tá, em se tratando de presentes dele, a disputa é feia. Mas a Insustentável está em primeiro lugar sim.
Ja lí e reli. Já chorei e me apaixonei, já emprestei e morri de saudade, hoje tenho como um troféu que vou levar pra sempre.

Este é um daqueles livros em que leio pouco, mas releio sempre.

Paulo Bono disse...

o livro é bacana mesmo.

Morganna disse...

eu PRECISO ler esse livro. faz décadas e um amigo me recomendou. aiai.

Luca disse...

Tu já é a terceira pessoa que me indica o Kundera. Encontrei os livros dele num sebo, outro dia, mas tava sem grana.
E sim. Temos personagens externos a serem explorados. Nosso personagem único e interior não é o quê revela ou é revelado na escrita.
Qdo eu escrevo, tem mais quem um bocado de mim. Há um mundo inteiro.

Beijoooo, Jô! Tava com saudades daqui!

Mila disse...

Ai! Eu TENHO que ler esse livro até o final desse ano!
Eu já tinha curiosidade (por um motivo ridículo, aliás. rs), mas de uns meses pra cá, esse título brota na minha frente, em todo canto que eu vou.
Ele me chama!
rsrs

F. S. Júnior disse...

tá lendo é?
acabei de ler uns quinze dias atrás e em seguida emplaquei outro... Valsa dos adeuses... muito bom tbm... Kundera é Kundera... beijos

Juliana disse...

eu peguei uma vez numa biblioteca...
mas quando estava na metade do livro, decidi não ler mais
motivo:
achei q não era o momento.

mas eu ainda hei de lê-lo por completo...

Lúcia disse...

Menina, realmente preciso reler esse livro... li por volta dos quatorze ou quinze anos, e tenho plena certeza de que muita sutileza passou direto pelo meu espírito ávido, curioso e apressado na época. Aliás, esse é um daqueles livros perfeitos pra se ler de tempos em tempos: acredito que a cada vez que a gente lê a gente se descobre refletindo sobre coisas que não tinha pensado antes. Ou sobre as mesmas coisas de um jeito diferente, mais maduro. Já o recoloquei na minha lista!