sábado, 9 de fevereiro de 2008

Voyeur


Ela sentia os olhares dele quando parecia distraída. Analisava-a milimetricamente. Já o vira entre frestas e portas entreabertas, sempre observando com um esforço sobre-humano de ser discreto.
Ele devia ter, se muito, 16 anos e sua admiração envaidecia muito a balzaquiana. Pensava na quantidade de meninas lindas, ninfetas, que ele devia cruzar por dia, mas era por ela que seu queixo caía. E ela sabia usar isso.
Namorava o pai daquele rapaz há, no máximo, dois meses. Não sabia com certeza, mas se tinha certeza de algo era de que desde o primeiro dia em que estivera lá, ele, o filho, desenvolvera uma tara por ela. Algo que só mesmo um pai não perceberia.
Gostava de instigá-lo. Já deixava frestas para ele. Nunca fechava as portas. Quando se sentia observada, sempre mexia nos cabelos, ajeitava o decote.
.
Aquele ar de nerd, com os óculos na ponta do nariz, os cabelos bem penteados... nunca fizera seu tipo. Nem nos tempos de escola. Mas algo nele a atraía. Possivelmente a virgindade. Seu pai havia confessado isso certo dia, no jantar em que a pedira em casamento.
Nessa mesma noite, ao chegar em casa, o pai deu a notícia do noivado e os olhos do rapaz se apagaram. Olhou-a com um desespero comovente. Esperava dela uma negação daquilo. Com um meio sorriso, os dois subiram para a comemoração. Nas mãos dela uma garrafa de champagne e duas taças, além do anel de noivado, que reluzia, cegando-o. Desnorteado, olhou os livros de matemática sobre a mesa de jantar já parceiros da louça e dos talheres.
Diante da porta entreaberta, viu seu pai e a futura madrasta na melhor parte da comemoração. Tocou-se, imaginando a cena com uma troca de personagem.
Ficou paralisado quando viu o olhar da madrasta em sua direção com um sorriso.

No café da manhã do dia seguinte, os dois estavam à mesa. Frente a frente. O voyeur mal conseguia levantar os olhos.
- Você gostou do que viu ontem?
- ...
- Não se preocupe, vou me casar com seu pai. Ficaremos bastante tempo sozinhos aqui. Ele trabalha muito, você sabe. Posso te ensinar umas coisinhas. Mas pra isso você precisa me prometer que se guardará pra mim. Promete?
- ...
- Promete?
- Prometo.
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*****
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Ouvindo Pra ser sincero, Marisa Monte.


13 comentários:

Critical Watcher disse...

Muito bom isso!
Surpreendente, eu diria.
Muito bom o contraste de personalidades... Ela, madura e ardente, disposta a permitir prazeres ao jovem garoto, que só a tinha entre as brechas daquele quarto.

Cuidado pra não acabar se apaixonando pelo garoto!

Palmas pra você.

Beijoo!

F. S. Júnior disse...

eu diria que o que a atraía não era o garoto em si, mas a situação... a comodidade da situação...rs

muito bom... vc escreve muito bem e não há dúvidas...

beijos

Rodrigo disse...

Prazer em ler.

Critical Watcher disse...

Realmente é um risco que se corre...
E só em saber que pode valer a pena, já nos faz querer sentir o impalpável... Instiga-nos!

Obrigado pelo comentário em meu blog. Não é nem preciso dizer que a recíproca é verdadeira.

Beijo...

=P

Johny Farias disse...

Seus textos lembra-me muito Nelson
Rodrigues, é impressionante isso.
Esse seu vômito ipnotiza o leitor
de tal forma, que, o ponto final
nunca é bem vindo.

Obrigado, pra mim a mulher
lutou esses anos todos, e nada
pode mudar isso, não existe
nenhum patamar pra colocar vocês
pois vocês já nasceram nele.
Em relação ao que disse sobre meu
blog, o sentimento é mútuo.
Vou procurar o texto que disse.

Beijo's

Proibida disse...

Sensacional! Daqui a pouco brigarei pelo posto de fã número 1 sua. hehehhe

Ah! Muito obrigado pelos elogios. É uma honra recebê-los de tão boa escritora.

Voltarei... ^^

;*

Morganna disse...

Sensacional! [2]

Menina, tu precisa fazer um livros com teus contos! Verdade. E quando tiver pronto eu quero um autografado e tudo, tá? \o/
UoU!

Beeeeeeijo. :**

Luca disse...

Ela que promete!

Beijoooooo

Gabriela. disse...

É, o Sollers tem uma coisa escrita assim.rs. E excelente texto, menina. Acho que vou começar a numerar isto, pra eu não me perder. Valendo:

Excelente texto (352)

Bárbara (B.) disse...

A libertinagem está mesmo atacando as mulheres de vez. Ainda bem. Rs
Muito bom o texto, Jô.

Beijos.

Ane Talita disse...

muito bom!
bela balzaquiana!

beijão!

=)

Victor Viana Clemente disse...

Nossa.. que maravilhosa história...
São essas peculiaridades do cotidiano que enchem de prazer os olhos do leitor...
ah, a virgindade... Sempre instigando tanto eles como elas...
Adorei seu blog... Parabéns...
Vou te linkar lá no meu...
Ótima Leitura...

SAMANTHA ABREU disse...

uau!