quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Correspondência


Meu querido,

Lembro com uma clareza incomum de nossas conversas, nossos olhares tímidos no começo, os sorrisos que diziam muito e nos divertiam menos do que encantavam. Dos ciúmes bobos e infantis que nos cegavam para a beleza das outras coisas. Lembro do quanto você se divertia com meus presentes enigmáticos que você só ganhava se os desvendasse. Os livros que nos demos e emprestamos, esses eu tenho até hoje, numa prateleira especial. Cuido deles como de filhos, animais de estimação ou algo que o valha.

Recordo-me, não sem dor, do quanto fomos felizes. As viagens que fizemos, as fotografias que tiramos... um dossiê de uma vida. E quando penso em tudo isso, me pergunto como você pôde me abandonar... deixar tudo que você dizia amar e querer para sempre. Por isso eu não te perdôo. Perdôo você pelas brincadeiras infames em horas impróprias, pelas risadas nos meus momentos de mau humor, pelas vezes que me acordou de madrugada para jogar xadrez porque estavas insone, pelos livros que me pediu emprestado e não leu, pelo meu cd preferido que você deu de presente a um amigo e por tantos outros pequenos delitos.

Você sabe que mereceu isso, não sabe? Eu avisei que não toleraria ser abandonada. O seu problema foi nunca ter levado a sério. Estou indo ao cemitério te deixar flores, como faço todos os anos. Comprei copos de leite, sei que você gosta. Esta carta vai acompanhá-los. Não é a primeira, mas talvez seja a última. Conheci um rapaz. Ele parece interessante, gosta das mesmas coisas que eu, tem planos semelhantes... acho que temos potencial para dar certo. Se no ano que vem não chegarem flores para você, é porque eu me mudei. É possível que eu vá morar em Istambul. Surgiu uma boa proposta de emprego lá, estou analisando. Ele se ofereceu para ir comigo. Talvez eu aceite.

Adeus, querido.

Feliz aniversário.


Sua Elfa.


15 comentários:

luizg. disse...

nossa!

trágico... mas muito bem escrito, como sempre...

Edgar Sollers disse...

Bonito esse pequeno mausoléu de amor eterno. Trilha sonora após ler: Queen, 'Who Wants To Live Forever' rodando infinitamente a última frase... 'why love must die?'

Gabriele Fidalgo disse...

Meu Deus!!

De arrepiar, Jô!
Muito, muito bem escrito mesmo.
Emocionante.
Adorei!

beijos

Edgar Sollers disse...

Acho que as coisas tristes são inevitáveis, a beleza que extraímos dela não deixa de ser um conformismo. E também ponto comum da humanidade.

Já fiz várias sândices pelo "momento de alegria", momentos que me valeram a alegria de uma vida toda. As dores, são ônus desse júbilo. Mas, a despeito das dores, faria tudo de novo... porque, como você disse certa feita sobre o fundo do poço: A gente sempre pode descer mais...rs

Reminiscência, é a primeira vez que posto lá, é uma variação de um mesmo tema que eu já havia escrito. É uma das Tragédias em Dois Atos Indissociáveis... Ficou com cara de repetido? rs

F. S. Júnior disse...

uau!
trágico e sombrio... mas como disseram, muito bem escrito... dias atrás me aconteceu uma idéia aparecida, até tentei escrever, mas não saiu do jeito que eu queria... beijão e bom final de semana!

Mila disse...

Nossa!
Adorei!
Coisa que mulher desiludida adora é isso: esfregar na cara do ex que ela está feliz e muito bem sem ele. Mesmo que não esteja. Mesmo que ele nem se importe se ela está viva ou não. E, neste caso, mesmo que ele nem tenha como saber.
Mulher com orgulho ferido é um perigo.
rs

Gostei das leves mudanças por aqui. E, olhando sua foto, vc lembra um pouco a Céu.

Beijos

André disse...

Olá. Passei por aqui e gostei demais do que vi. Tô colocando nos favoritos de meu blog e volto pra ver tudo com calma...
=)

Edgar Sollers disse...

Eu é que estou assutado... ah, já sei você trabalha na Bravo por acaso? Provavelmente você é a quarta ou quinta pessoa que leu esse texto... e até o 'Laico' e o '...Mortes' eu era avesso a Blogs, nunca o postei e tenho vergonha de mostrar meus textos para as pessoas...rs. Mesmo por que Reminiscências ainda está "cheirando a tinta". Será que foi um déjà-vu?

Edgar Sollers disse...

Ah, a Babs, falou comigo...rs, esclarecido!

Lais Mouriê disse...

Lindo e triste... mas adorei demais!

Bjos, JÔ

Siloé disse...

oi, boa noite! quem é vc? vc escreve bem! é amiga da Lais? (to vendo o comentário dela aí em cima!) mto bacana seu texto! bjos!

Camila disse...

Já disse a Martha Medeiros: "Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, sem a nossa concordância, mas que precisa sair também de dentro da gente." Como acabei de "enterrar" um amor impossível, mais uma vez me vi nessa história que contaste aqui. Adorei.

Beijos! Bom domingo, moça!

Zaira Brilhante disse...

Ei menina... cartas sempre sao cartas. Tenho mtas historias com cartas, principalmente aquelas que eu tinha certeza, nunca chegariam a ser lidas por seus destinatarios, por n razoes...
A gente se abre quando coloca no papel sentimentos, e isso eh mais intenso ainda quando temos em mente a figura de um interlocutor, ne?
Cartas fazem sofrer... fazem chorar, mas pra mim, sao sempre belas e tristes!
****
ps: gostei do toque novo por aqui! ;) bjsss

Camila disse...

Nossa...
Intenso esse texto.
Nele há tantas palavras que já tentei dizer. É como se você tivesse feito um apanhado dos meus anceios linguísticos-sentimentais.

Tomei a liberdade de ler outros posts e como gostei muito da sua forma de expressão, te linkei,tá?!

Parabéns pelo dom de extravasar através da escrita.

Camila disse...

Nossa...
Intenso esse texto.
Nele há tantas palavras que já tentei dizer. É como se você tivesse feito um apanhado dos meus anceios linguísticos-sentimentais.

Tomei a liberdade de ler outros posts e como gostei muito da sua forma de expressão, te linkei,tá?!

Parabéns pelo dom de extravasar através da escrita.