sexta-feira, 18 de abril de 2008

Dos casos mal resolvidos


Parte III

E junto às alianças, cansava-se também a relação, que envelhecera precocemente, como um portador de progeria. Isadora já se machucava ao dizer não a Lucas. Enquanto ele sentia uma vontade maior que si de vê-la transitando em sua casa com roupas íntimas confortavelmente ao acordar com os cabelos lindamente desgrenhados.

- Acho melhor a gente terminar.
- Terminar? Você só pode estar brincando. Acabei de ouvir ao pé do ouvido que você me ama...
- E amo.
- E então?
- É uma questão de bom senso, Lucas.
- Como você pode pensar em bom senso quando o assunto é sentimento?
- Você quer uma coisa, eu outra. Estamos nos maltratando com isso. Eu não posso te dar o que você quer e nem você o que eu quero.
- Você é tão programada! Segue sempre alguma espécie de lógica em tudo que faz, coisa mais irritante!
- Lucas, quantas vezes brigamos nas últimas semanas?
- Muitas, mas isso faz parte das relações humanas.
- Não pra mim. A gente não entende o que o outro diz.
- Quem sabe com esforço.
- Eu não quero mais.

Disse isso e pegou a bolsa sobre a mesa, bateu a porta. Saiu soluçando pelo corredor ecoante. Nas escadas já não conseguia controlar o soluço que a sacodia convulsivamente.

Ele não tirava os olhos da porta. Sentou-se no chão da sala e chorou. Prometeu a si mesmo que não a procuraria.

Isadora jamais o procuraria, era orgulhosa demais para admitir que se arrependera e que queria voltar atrás. Embora soubesse que uma semana depois a tormenta recomeçaria pelos mesmos e velhos motivos.

Percorrendo seu caminho habitual do trabalho para casa lentamente, lembrou-se do dia em que saíram para jantar e na volta para casa não queriam se separar. Lucas estacionou o carro e a conduziu pela mão àquele banco de praça, que ela agora contemplava, no qual permaneceram por horas consecutivas, horas em que o tempo parecia em suspenso. Cada canto daquela cidade lembrava Lucas direta ou indiretamente.

........

Passados seis meses, Isadora abre um jornal a caminho do trabalho dentro de um táxi. A foto em preto e branco de Lucas de fraque ao lado de uma moça com um buquê de rosas brancas nas mãos a paralisa. Sai do transe com a mão do motorista do táxi no seu ombro perguntando se ela vai demorar a descer, lembrando-a de que o taxímetro está ligado.

*******

Eu não esqueci da minha missão, viu, seu Gamella? A próxima postagem é dela. ;)

12 comentários:

Hugo Pessoa de Baraúna disse...

Muito bom! =)

Vivi algo nesse contexto recentemente e achei muito interessante ler um texto assim logo agora.

Então vou casar com outra! Ainda bem, hehehe.

Parabéns pelo blog e pelos textos!

Lúcia disse...

Ver quem a gente ama andar pela casa em roupas íntimas, com os cabelos deliciosamente desgrenhados depois de uma noite daquelas... ahhh me diz, quem é que, no fundo, lá no fundo, não quer isso?? Isadora perdeu. PER-DEU!
Eu? Eu pagaria o preço fácil, fácil....

E você que não se decide pelo layout hein??? A cada vez que passo aqui vejo uma foto mais escandalosamente linda do que a outra...!

Beijos Jô, e não se esqueça de mim quando o Cirque du Soleil passar por aí! Hahaha!

FINA FLOR disse...

é, certos amores são, mesmo, uma ilusão...... que bom que ela foi viver a vida dela.

beijocas e bom fim de semana,

MM.

Bel Gasparotto disse...

Essas histórias mal resolvidas sempre machucam, cedo ou tarde, pouco ou muito. Mas acho que indecisão machuca mais.

Acabei de lembrar que o Vinícius dizia que "o amor só é bom se doer". Será mesmo?

Juliana Caribé disse...

Layout novo... Bonito!

Luca disse...

Sinceramente? Estou confusa. Será que as histórias de amor são todas tão óbvias?

E lá se foi o amor que ela amou, mas pelo qual não quis lutar...

Ni ... disse...

É duro aceitar que amar não é tudo em uma relação...

Gosto demais do seu cantinho...
beijo Irmã linda.

Camilinha disse...

Pra mim, funcionou como um puxão de orelhas...


beijos daqui...

nj.marabuto disse...

há certos comportamentos femininos que ainda não entendo. confesso.

ih já fui tão 'lucas' nessa vida... me saltou os olhos a cada linha lida, tamanha a identidade com alguns, senão quase todos, trechos.

beijo

FINA FLOR disse...

dear, tive que tomar uma medida mais drástica, digamos assim, em relação aos meus vizinhos.... passe lá no canteiro e veja.

beijocas

MM.

SAMANTHA ABREU disse...

ah...
ando sensívellll!!!

luana disse...

Quando não se entende o que o outrO diz... é hora de partir!
Mas o preço da dúvida é altO. Faz tanto tempo e parece que foi ontem, a dúviva é assim...

Quero equação matemática no amOr, rs