
Sofria da síndrome de pavão. Queria todos os homens à sua disposição, mesmo aqueles que ela não queria nem quereria jamais. As mulheres poderiam se limitar a admirá-la e invejá-la. Sabia que era bonita. Achava-se linda até mesmo chorando, quando somente abençoados permaneciam bonitos. Ficava horas prostrada em frente ao espelho do banheiro chorando dissimuladamente. Só para ver o seu melhor ângulo. Aquela luz a valorizava muito. Moraria naquele banheiro. Nas outras mulheres sempre achara um defeito ou outro, mas nela não. E já procurara minuciosamente. E ainda dizem que a perfeição é um mito.
Morreria por um elogio bem feito e pela sua parte preferida: a falsa modéstia. Conseguia até se fazer corar. Ela vivia disso. Não saberia ser de outro modo. Adorava uma mesa de bar cheia, o seu telefone que não parava de tocar. As gargalhadas mudas e repetidas, as conversas sem profundidade. A profundidade é para os românticos, era sua frase de efeito. Adorava frases de efeito. Estava sempre acompanhada. Apesar disso, quando a cortina se fechava, se mostrava mais solitária que um paulistano** .
* Narciso ou Auto-admirador, em grego.
** Música incidental: Telegrama (Zeca Baleiro).
6 comentários:
Gostei muito! Eis um pequeno conto construido com cuidado e carinho!
E terminado, tal um soneto, com perfeita chave de ouro.
Porem as notas de rodape me fazem lembrar que nao podemos mais simplesmente fazer referencias veladas, se nao forem explicitadas ninguem as entende!
Adorei a construção do texto, Jô, e os pequenos detalhes que você incluiu: zeca e o grego.
Poderia ter continuidade.
Nossa... Gostei de tudo o que vi aqui!!! Sonhos, sonhos e sonhos... Não sou como esta mulher... Mas quem sabe em um sonho.. Sua nova seguidora!
Maravilha!!
As pessoas que sempre necessitam de platéia,com certeza, são as mais solitárias.Quem se ama de verdade se dá bem consigo mesmo...
Você sabe o que diz e como o dizer!!!
Parabéns!!!
Beijooo!!!Sonia Regina.
Muito bom! Estava passando por alguns blogs e esse aqui me chamou a anteção. Gostei da forma com que apontou o ego da personagem.
Voltarei!
=)
Jô!! Que saudades de passar por aqui!
Ando tentando ressucitar aquele meu blog e aproveitei pra matar as saudades daqui... como vai vc?!
Gostei da personagem e não a achei assim tão fútil: "A profundidade é para os românticos" foi profundo...! Hahahah!
Beijo grande pra ti!
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