domingo, 21 de outubro de 2007

Uma qualquer



Sentada numa cadeira de uma delegacia qualquer, Eulália passa a língua nos dentes pensativa. Estão quebrados. Ela lembra então do episódio da noite anterior. Um cliente. Fez de tudo e no fim da noite não quis pagar os serviços prestados. Devido a sua reação agressiva e indignada, deu-lhe um soco que lhe quebrou os dentes incisivos e a deixou desacordada. Quando despertou, sabe-se lá quanto tempo depois, estava sozinha naquele quarto que fedia a enxofre e mofo. Sua bolsa estava aberta e todo seu dinheiro havia sido levado. Aborrecida e desgrenhada, ela sai do quarto, conversa com o dono daquele lugar chinfrim, onde costumava ir com seus clientes, e acerta o pagamento do pernoite para mais tarde.
Ainda pensativa, lembra da morte da mãe. Assassinada pelo namorado que acreditava em uma possível, mas não confirmada, traição. Crimes passionais são sempre tão risíveis... Não há de ser à toa que está entre os pecados capitais, que são, diga-se, os melhores de se cometer.
Tais pensamentos levam-na ainda a outro acontecimento. Remete-se ao dia em que seu pai a acordou no meio da noite, não cheirava à bebida, como de costume, no entanto, chegou a sua cama cambaleante. Fingimento? Talvez. Disse que ela estava virando mocinha e que os rapazes em breve começariam a desejá-la. E que ele, como pai, tinha direito de tê-la antes de todos os outros. Aos dez anos, não compreendera muito bem o que ele quisera dizer com “direito de tê-la”. Até que ele começou a passar a mão em suas coxas e tentar beijá-la. Oferecendo alguma resistência e tentando fazer algum barulho para que sua mãe, que dormia profundamente no quarto ao lado ouvisse, escutava ameaças sussurradas pelo pai.
É só do que consegue lembrar. Os demais detalhes foram apagados por sua memória seletiva. Lembra, porém, que depois foi a uma delegacia fazer corpo de delito, mas não antes de ir a um hospital com um forte sangramento. Recorda-se também que seu pai respondeu a um longo processo e passou um dia preso. Acabou solto por um habeas corpus impetrado por sua advogada.
Dispersa em seus pensamentos, Eulália estava totalmente alheia aos insultos e gracejos de dois policiais que tomavam café perto de onde ela se encontrava. Ainda imersa em reminiscências, ela pensava com que dinheiro ia pagar o aluguel miserável do cubículo ainda mais miserável que a abrigava. O maldito cliente da noite anterior não só não pagou o programa como roubou o dinheiro que ela separara para o aluguel. Teria que trabalhar dobrado. “Mulher de vida fácil?”, pensou e fez um muxoxo.
Caindo em si, levantou-se e disse ao delegado que precisava ir embora, mas que a fiança ela pagaria a ele com a única coisa que ela sabia fazer profissionalmente, porque dinheiro, esse ela não tinha. Ele deu um sorriso com o canto dos lábios e disse: “Apareço no seu apartamento mais tarde. Se é que se pode chamar aquele muquifo de apartamento”. Ela deu um sorriso triste e se retirou. Já na rua movimentada e barulhenta acendeu um cigarro e parou num boteco de esquina para tomar uma cerveja.
Eulália não era bonita, nem jovem, não tinha charme algum e elegância definitivamente não era o seu forte. Seu olhar trazia a sombra que traz o olhar das pessoas sofridas e resignadas. Nunca se imaginara em outra profissão, embora já sentisse a perda numerosa de clientes por conta da idade avançada. No entanto, se sentia igualmente velha para uma mudança de vida. Não tinha família nem amigos. Era uma solitária, mas não por opção. A vida que levava exigia isso dela.
Tomando sua cerveja pensou que quando morresse não haveria velório, enterro... provavelmente iria para o IML com um adesivo escrito “indigente” colocado em seu dedão do pé direito. Tal pensamento a angustiava. Quem choraria sua morte? Alguém sentiria sua falta? Talvez o dono do prédio suburbano em que morava, quando fosse cobrar o aluguel e a porta não fosse atendida. Talvez o dono do motel barato ao qual ela levava seus parcos clientes. Ou nem eles.
Ao terminar a cerveja, tira da bolsa seu batom vermelho, passa em seus lábios murchos, cochicha algo ao ouvido do dono do boteco e vai embora sem rumo. Certamente volta para a vida anônima e não sentida que a angustia mais que a morte com as mesmas características.

2 comentários:

Lorraine disse...

Amei a sua estória... consegue nos fazer visualizar as cenas com toda nitidez... parabéns manina...

Edgar Sollers disse...

Maravilhoso. Por que eu não li isso antes?