quinta-feira, 26 de abril de 2012
Inspiração
At the Concert (Renoir)
Olhava o mundo com um ar tão blasé que parecia ser uma personagem de Renoir. Era uma incrédula. E uma indignada, apesar de tudo. Não acreditava em promessas, em juras de amor. Tudo soava falso, ensaiado. Só a arte tinha o poder de remexê-la. Até que conheceu um artista. Apaixonou-se. Acreditou que ele era a representação humana da arte. Talhado sob encomenda. Cada tela que ele pintava era um suspiro apaixonado que ela soltava. Chegou até a crer na eternidade, quem diria. E só se apegava a isso porque não imaginava um fim para tamanha perfeição. Era tão perfeito que parecia surreal. Um Dalí, decerto. Os relógios escorridos passaram a ser uma realidade, pois o tempo passou e ele encontrou outra musa para inspirar sua arte. E ela voltou para seu velho e roto Renoir, até que algum Van Gogh viesse arrancá-la novamente de lá.
domingo, 22 de abril de 2012

- Sabe qual é o problema?
- Não.
- Você tem medo de mim. E você sabe que quando o assunto é relacionamento, o medo é um sintoma de vontade, não sabe?
- Quanta pretensão...
- Depende, se eu estiver errada, realmente estou sendo pretensiosa, mas se estiver certa, sou apenas... observadora.
- Sei...
- Eu não tenho essa resposta, entretanto consigo lidar com a dúvida. Você a tem. Consegue lidar com a escolha?
***************
Tentei descobrir o autor da tela, mas não consegui, se alguém o conhecer, só informar.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
(In)Certezas
- Como teria sido se tivéssemos ficado juntos naquela época?
- Nunca saberemos, mas talvez nem estivéssemos mais juntos.
- Talvez? Tenho quase certeza.
- O quase é que acaba com a gente, não é?
- É...
- Poderíamos tentar novamente...
- Não, perdemos o tempo de fazer isso. Passou.
- Só se for pra você. Nunca me perdoarei por não ter tido coragem.
- Não confunda arrependimento, culpa, com vontade. Se fosse vontade realmente não estaríamos aqui conversando, estaríamos ocupados demais pra isso.
Ele a beijou. Olharam-se por alguns segundos e gargalharam sonoramente.
- Eu não disse? Enche a minha taça, que vou buscar mais queijos.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
"Antes de embarcar em uma vingança, cave duas covas" (Confúcio)

(Texto escrito em parceria com Katy Cordeiro)
A noite chuvosa parecia refletir seu estado de espírito. Andava descontroladamente de um lado ao outro do quarto já nervoso com a espera que aparentava, como toda espera, ser muito mais longa do que era de fato. Ela era sempre pontual, mas hoje se atrasara por mais de uma hora.
O céu estava avermelhado de tão cinza, tal qual a sua consciência inundada de culpa. O medo de ser abandonado misturava-se indissociavelmente à ansiedade para vomitar seu discurso mais do que ensaiado.
Olhava-se no espelho a fim de ocultar qualquer rastro de culpa, quando bateram à porta.
Ele, sabendo de quem se tratava, abriu sem cerimônia.
Ela, sem guarda-chuva ou indícios da chuva em sua roupa, entra ofegante e solta somente um “oi” pálido, com um olhar enviesado.
Ele diz: - Fica à vontade, vamos conversar. Senta-se a sua frente com pavor de que seu texto lhe fugisse da memória, inicia aquilo que mais estava para um duelo que para um diálogo:
- Bom, eu queria comecar dizendo que...
Interrompendo-o como alguém que se atira na frente de um caminhão, diz: - Não tem jeito, acabou! Vamos nos poupar dos discursos prontos.
- Mas eu juro que ela não significou nada! Foi coisa de momento! Não foi premeditado!
- Não adianta, acabou!
- Não consigo entender, eu sei que errei, me dê uma chance, por favor! Não a conheci intransigente assim...
- Intransigente? Então com isso você quer me dizer que se fosse o contrário, você me perdoaria?
- Sim.
- Você tem absoluta certeza disso?
- Claro, eu a amo, mas você não é capaz de me perdoar, não é?
- Sou.
- Então por que não acabamos com isso de uma vez?
Ele, já com o alívio lhe descendo pelo peito, tenta abraçá-la. Ela o impede e depois de um longo silêncio completa:
- Eu até posso perdoar, mas você não conseguirá. Só precisei atravessar o corredor pra vir até aqui. Dormi com o Marcos, mas se isso te traz algum alívio... ele não significou nada.
- Como você pôde? Ele é um irmão pra mim!
- Eu não pus uma arma na cabeça dele.
- ,,,
- E agora? Dois pesos, duas medidas?
- Saia da minha casa.
Já na rua, ela sentia a chuva molhar seus cabelos e o frio aumentar. Naquela noite, ela não se sentiu melhor como achou que se sentiria.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Dos tratados de amor que se transformam em bilhetes de despedida

Revirando pastas antigas de meu e-mail, encontrei nossas memórias do tempo em que trocávamos carícias em palavras. Encontrei também o pesar crônico que você sempre teve orgulho de estandartizar. Seu sofrimento está expresso em cada pronome, em cada artigo indefinido. E isso me feria tanto que me perguntei diversas vezes se você não superaria nunca aquela perda. Percebi então que os primeiros e-mails eram enormes, praticamente tratados. Depois de alguns meses, meras linhas apressadas, sem conteúdo e carregadas de desculpas para justificar o eco que elas faziam em si mesmas. Assim como nós.
Não fiquei nostálgica, fiquei apenas enraivecida, porque o fim de qualquer amor é irritante.
Decidi não criar mais diretórios para amores pequenos e fracassados. Incluiria todos na pasta Diversos.
sábado, 31 de março de 2012
Faz algum sentido?
Imagem: Escher.
Quando você é objetiva, acaba sendo chamada de insensível ou durona, o que é um equívoco. Dos grandes. Afinal, a diferença entre ser objetiva e não o ser é que, quando você o é, tenta ser coerente, embora saiba que tudo tende à incoerência. E, por esse motivo, acaba dando um sorriso blasé para os acontecimentos e deixa-os acontecer, já que eles fariam isso sem a sua autorização mesmo. O ser objetiva entra aí: aceitar que você faz planos e a vida ri da sua cara. Então entre ser alvo do riso e rir junto, você prefere entender a piada e rir também.
Quando você é objetiva, acaba sendo chamada de insensível ou durona, o que é um equívoco. Dos grandes. Afinal, a diferença entre ser objetiva e não o ser é que, quando você o é, tenta ser coerente, embora saiba que tudo tende à incoerência. E, por esse motivo, acaba dando um sorriso blasé para os acontecimentos e deixa-os acontecer, já que eles fariam isso sem a sua autorização mesmo. O ser objetiva entra aí: aceitar que você faz planos e a vida ri da sua cara. Então entre ser alvo do riso e rir junto, você prefere entender a piada e rir também.
sexta-feira, 23 de março de 2012
Os opostos não se atraem ou "Eu ando num labirinto e você numa estrada em linha reta" (Moska)

Ela gostava de Chico Buarque, ele de pagode. Ela de cinema alternativo, ele de filmes de pancadaria. Ela adorava teatro, ele, bar. Ela apreciava o silêncio e ele a balbúrdia. Ela tinha um chaveiro da Torre Eiffel, ele adorava torres de cerveja. Ela usava o carro para se transportar, ele para charlar. Ela gostava de música ambiente, ele, de volume máximo. Ela elaborava metáforas, ele ria. Separaram-se em comum acordo, foi a única vez que concordaram.
quinta-feira, 15 de março de 2012
Do silêncio que ensurdece

Ele sentia aquela dor pontiaguda que antecede uma má notícia. Prostrou-se resignadamente para esperar a tempestade.
Quando ela chegou, com o ar ditador inconfundível das decisões irrevogáveis, e fez menção de falar, ele a interrompeu com um gesto de mão, bateu continência e disse:
- Sim, senhora.
Partiu com os olhos inundados.
quinta-feira, 8 de março de 2012
Dos Diálogos Memoráveis XIX (Edição Especial Dia Internacional da Mulher)

- Ah, mas queres me fazer acreditar que essas coisas de mulherzinha: maquiagem, salão de beleza, manicure e afins não são futilidades?
- Claro que são! Só não entendo o porquê de isso tudo sempre parecer mais fútil do que cerveja, futebol e carros com bancos de couro e caixas de som histéricas e reluzentes.
- Mas nem todos os homens são viciados nessas coisas.
- O mesmo vale para as mulheres.
- É, pensando por esse lado... Tens razão.
sexta-feira, 2 de março de 2012
"Numa separação, aquele que não ama é o que diz as coisas carinhosas" (Rubem Fonseca)

- Você não entende.
- Não mesmo. Como alguém resolve terminar um relacionamento e inicia o discurso com um "eu te amo"?
- Você é mulher demais para qualquer homem.
- Fale por você.
- ...
- E vá embora com essas flores sem sentido.
- Mas eu as trouxe pra você.
- Então vá sem nada nas mãos, exatamente como chegou.
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