segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A distância ou De perto ninguém é normal

Gala Nude From Behind Looking in an Invisible Mirror, Salvador Dalí. 1960

Aquela mulher era, para ele, um ícone da perfeição. Cada curva, cada nuance parecia feita por mãos de artista. Ela sequer cruzara um olhar distraído com o dele. Idealizava-a como um ser superior a todos os outros. Seu modo de andar era tão gracioso que ele achava uma infâmia sinais se fecharem para ela. Tudo deveria parar para que ela simplesmente pudesse mostrar ao mundo a graça. Quisera várias vezes se aproximar e iniciar uma conversa, ainda que superficial. Hesitava sempre. Sua teoria de que é melhor não chegar perto demais de quem se admira fora infalível até então. A admiração, pensava, deve permanecer no âmbito da idealização. Só assim o ser admirado se mantém sem máculas.

Certo dia, uma grande oportunidade tornou impossível resistir a uma investida. Encontrou-a em uma biblioteca folheando A Divina Comédia.

- Já leu?
- Não, não.
- Maravilhoso.
- Imagino.
- Por que não leva?
- Eu não gosto muito de ler.
- Não? E o que faz numa biblioteca?
- Estou esperando meu namorado. Ele trabalha aqui.
- Ahhh...

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Chuvas de Verão

Parte III ou Final

Durante todos os outros dias, eles ficaram juntos. Ela pediu discrição, já que ele era noivo e tal informação era de conhecimento geral. Entretanto, ele, como a maioria dos homens, não sabia ser discreto. Os olhares e sorrisos eram perceptíveis até ao mais desatento dos observadores. O cuidado e atenção que dispensava a ela eram exagerados.

Ela já não se importava. Quando percebeu, estavam andando de mãos dadas em plena praça, rindo de piadinhas que só os apaixonados conseguem rir.

Após uma semana de romance, a despedida. Ela voltou a sua cidade contendo as lágrimas, ele permaneceu no cais sem conter as dele. O último beijo foi entrecortado por promessas.

- Eu vou te encontrar.
- Então vá.

Pôs na mão dele um bilhete com um número de telefone e virou as costas. Preferiu não olhar mais.

(...)

Telefonemas espaçados ainda os ligava.

- Vou à tua cidade na semana que vem.
- Sério?
- Juro.
- Vens a trabalho?
- Não. Vou pra te ver.
- ...
- Ligo quando chegar.
- Combinado.

Beatrice foi ao supermercado, comprou o melhor vinho que conhecia, frios e alugou filmes. Uma amiga, acompanhando a excitação, emprestou seu apartamento para o encontro. Estava tudo preparado.

Um dia se passou. Ele não ligara. Outro dia. Nada. Mais um dia. Aquele em que iria embora, segundo o que dissera na semana anterior.

Às 22h37, o telefone toca.

- Estou indo embora.
- Boa viagem.
- Me perdoa. Não pude te encontrar. Ela veio me encontrar aqui.
- Ok. Espero que se casem logo. Noivados longos são desgastantes.
- Não fala assim. Você sabe que eu queria estar com você.
- Eu achei que soubesse.
- ...
- Boa viagem. Não precisa me ligar mais.

Já dizia alguém que a expectativa é a ante-sala da frustração. Beatrice, que sempre detestara frases feitas, tornou esta seu lema.

Depois deste episódio, foram várias vindas, telefonemas e apelos, mas ela não encontrava disposição alguma para tentar novamente. As desculpas e pretextos para dizer não eram sempre um desafio de criatividade. E isso era bem mais divertido do que a espera vã. Descobrira que poderia ser bem sádica quando estimulada, como as boas mulheres o são.

*******

Eu havia abandonado esta série sem final, mas achei isso tão reticente, que resolvi finalizá-la. As outras partes encontram-se no marcador Chuvas de Verão, no lado direito da página, a quem interessar.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Νάρκισσος*

Sofria da síndrome de pavão. Queria todos os homens à sua disposição, mesmo aqueles que ela não queria nem quereria jamais. As mulheres poderiam se limitar a admirá-la e invejá-la. Sabia que era bonita. Achava-se linda até mesmo chorando, quando somente abençoados permaneciam bonitos. Ficava horas prostrada em frente ao espelho do banheiro chorando dissimuladamente. Só para ver o seu melhor ângulo. Aquela luz a valorizava muito. Moraria naquele banheiro. Nas outras mulheres sempre achara um defeito ou outro, mas nela não. E já procurara minuciosamente. E ainda dizem que a perfeição é um mito.

Morreria por um elogio bem feito e pela sua parte preferida: a falsa modéstia. Conseguia até se fazer corar. Ela vivia disso. Não saberia ser de outro modo. Adorava uma mesa de bar cheia, o seu telefone que não parava de tocar. As gargalhadas mudas e repetidas, as conversas sem profundidade. A profundidade é para os românticos, era sua frase de efeito. Adorava frases de efeito. Estava sempre acompanhada. Apesar disso, quando a cortina se fechava, se mostrava mais solitária que um paulistano** .


* Narciso ou Auto-admirador, em grego.
** Música incidental: Telegrama (Zeca Baleiro).

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Algumas indicações

Acho que nunca estive em um momento mais cinéfilo. Todas as vezes que vou devolver os oito ou dez filmes que loquei para o final de semana, não consigo não locar mais dez. Por este motivo, vamos às indicações de filmes que vi esta semana (a verdade é que vi muitos e alguns bem ruins, então são poucos os indicados):

A Vida Secreta das Palavras (Espanha, 2005).

Lindo, sensível, tocante. É o tipo de filme que os primeiros quarenta minutos dão sono e tédio, mas que depois você não consegue parar de ver. E chorar. Triste e bonito, como os bons filmes tristes.

O Escafandro e a Borboleta (França/EUA, 2007)

Uma história real e trágica. De uma sensibilidade que só o cinema francês (e o espanhol e argentino) consegue ter. Existe também o livro a quem interessar.

Em nome de Deus (Inglaterra, 2002)

Esse é um amor antigo. Eu o revi e me apaixonei de novo. Um dos muitos filmes que contam arbitrariedades cometidas pela Igreja Católica.

Elsa & Fred (Argentina/Espanha, 2005)

Esse é daqueles que a gente não consegue não comprar para ter sempre à mão.
Um filme pra ver infinitas vezes, morrer de rir e se emocionar em todas elas.

E uma indicação musical:
Vanessa da Mata ao Vivo em Paraty. Cenário maravilhoso e arranjos novos.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Diário de viagem II

A visita à Região dos Lagos: Búzios, Arraial do Cabo e Cabo Frio.

BÚZIOS

A Rua das Pedras, no Centro.

Praia de Manguinhos.

Os Três Pescadores, escultura de Christina Motta.

As meninas.

Pôr-do-sol em Búzios.

Brigitte, na Orla Bardot, apreciando o pôr-do-sol.

ARRAIAL DO CABO

Passeio de escuna.

A Gruta Azul (eu também pensava que essa cor era alterada no photoshop para os cartões postais até eu ver pessoalmente).

A praia inacreditável.

CABO FRIO

A noite da cidade.

Na Adega Galiotto. Lugar e companhias incríveis.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Diário de viagem I

Foram dezesseis dias de, modéstia à parte, merecidas férias. Abaixo alguns registros fotográficos e comentários.

Rio de Janeiro

Copacabana continua sendo a princesinha do mar.

Vista do Forte de Copacabana.

Nenhum leitor resiste a essa visita.

Paraty
FLIP 2009

Uma das primeiras imagens. Impossível não ser inesquecível.

A imagem clássica.

A Tenda dos Autores. A primeira: Domingos de Oliveira e Rodrigo Lacerda.

O arlequim. Um espetáculo paralelo. Anda pelos bares e restaurantes recitando poemas e distribuindo peixinhos de papel.

A arquitetura.

A cachoeira do caminho tortuoso.


Ruth Rocha, Cony e Ana Lee na Flipinha. O palco mais lindo de todos.

O restaurante mais antigo de Paraty.

O inacessível.

Passei a Flip inteira me perguntando para onde ele estava olhando.

Conversando com os paritienses.

O centro histórico e seu piso nada gentil. Torci o meu pé 45564463478674546885 vezes.

Praia do Meio. Trindade. O paraíso escondido.

Mensagem aos que hesitaram em ir este ano à FLIP:

A FLIP não poderia ter outro nome, é realmente uma festa. No sentido mais positivo que possa haver. Há inúmeras programações paralelas. É uma efervescência de cultura e arte que só sabe quem esteve lá. Eu também achava que imaginava como era. Mas é muuuito melhor. Acreditem. Vale muito a pena. Estou no projeto de ir todos os anos. Alguém me acompanha???

** Em breve o Diário de Viagem II.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Frase do dia:

"Há sempre algo de ausente que me atormenta"
(Camille Claudel)

E quem nunca se sentiu assim, que atire a primeira pedra.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Festa Literária Internacional de Paraty 2009, EU VOU!


Depois de tantos anos com água na boca e tendo que me contentar com as notícias sobre a FLIP, decidi me dar de presente uma semana de cultura e pessoas interessantes. Estarei em Paraty extasiada com a presença ilustre de Chico Buarque, Milton Hatoum, Richard Dawkins, Xinran e outros.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Pós-scriptum

Quando eu perder a capacidade de enxergar animais em nuvens, espelhos em poças d'água, poesia no trem fantasma e me emocionar com casais apaixonados que se olham com ardor numa parada de ônibus, posso fenecer. A propósito, quero ser cremada e que minhas cinzas sejam atiradas sobre o Rio Sena ou, ainda, que me seja construído um mausoléu e me faça companhia um anão viajante que traga notícias do mundo para me alegrar.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Dos sadomasoquismos cotidianos

Carregava o peso do mundo nas costas. Culpas, mágoas, dores e feridas não curadas. Quem a via, com um sorriso crônico no rosto e a gargalhada assustadoramente sonora, podia imaginar as noites mal dormidas, os recalques, a amargura. A amargura que contaminava seu sorriso e fervilhava em seus olhos. Olhos atentos perceberiam. Os não tão atentos também notariam. Mas quantos olhos dos doze bilhões existentes no mundo realmente se importam? Quantos se detêm por mais de dois segundos sobre um estranho sem que seja por distração? Os sentimentos mal sentidos a sufocavam como um espartilho três números menor. Não se acostumava. Não se convencia. Não se perdoava. Queria o mundo inteiro infeliz. Só para se sentir menos sozinha. A felicidade monótona a irritava. Estrangulava sua calma. Não acreditava naquilo. Atores, todos uns falsos! Náuseas. Era o que sentia diante daqueles homens abrindo a porta do carro, puxando a cadeira e pagando a conta. Olhava para o lado e só via vidas de vidro. Frágeis. Ela sim era forte. Ela... que passara por tudo e ainda conseguia sorrir. Ela se bastava. Não precisava de ninguém para nada... a não ser para afrouxar as fitas do espartilho. Mas isso... isso ninguém queria fazer. Compaixão é uma virtude. E é sempre bom ter alguém para exercitar a piedade.