sábado, 12 de abril de 2008

Reflexões de porta de igreja



- Filhos... choradeira... marido reclamando... salário que não paga metade das contas... jornada tripla, quádrupla... pensava a noiva.
- Vamos, minha filha... a marcha nupcial já começou a tocar.
- Não, pai. Explique aos convidados que eu fui pra lua-de-mel. Sempre quis conhecer Budapeste. Ah, e diga ao noivo que eu peguei a passagem dele emprestada, vou levar uma amiga comigo. Eu mando o dinheiro de lá.
- Mas...
Ela já havia entrado num táxi.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Monólogo


- Quando ele puxa os meus cabelos para trás é a sua voz que eu escuto se desfazendo em sussurros pervertidos. É a tua mão que sinto apertando as minhas coxas. Ainda me toco à noite antes de dormir lembrando-me como era ter você entre minhas pernas. Para só então dormir profunda e mansamente. E me frustrar no dia seguinte ao constatar o vazio vitalício da cama infinita.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Dos casos mal resolvidos


Parte II

Um mês depois daquela noite regada a declarações de tempos distantes, sentimentos escondidos até de si mesmos e superegos pleonasticamente repressores, os dois formavam um típico casal de apaixonados com direito a telefonemas-relâmpago para dizer apenas que pensara no outro ao longo da correria do dia, bilhetinhos por toda parte, olhares brilhantes, mãos dadas e semi-sorrisos solitários e repentinos ininteligíveis e, na maioria das vezes, imperceptíveis aos demais.

Isadora nunca se relacionara com alguém com tamanha experiência de vida. Lucas se assustava com a diferença de idade, mas não conseguia parar de olhá-la e imaginar como seria um filho deles dois. Queria que tivesse os olhos e os cabelos dela. E a gargalhada também.
Ela o via como o melhor homem do mundo. Achava-se a sortuda das sortudas. Ele era um achado.

- Casa comigo?
- Hã?!
- A gente tá junto já tem dois meses e eu tenho certeza de que é você. Pra quê adiar mais o que pode ser tão bom?
- Eu não tenho nem emprego, Lucas! Casar?
- É, e ter filhos! E eu ganho bem, dá pra nós dois.
- Não, mas não é assim simples.
- Por que não? Eu peço transferência pra outra cidade que pague mais e tenha um custo de vida menor, tu vais comigo.
- Não, não vou.
- Se você gostasse mesmo de mim iria...
- Se você gostasse mesmo de mim ficaria.
- Temos um impasse?
- Não. Eu não vou me casar com você. Tenho dezenove anos, isso é demais pra mim.
- Você vai sempre se esconder atrás da sua idade?
- E você da sua? Alegando sempre que está numa idade que te faz precisar de estabilidade e blá blá blá? As coisas não precisam ser assim tão sérias.
- Então é uma brincadeira pra você?
- Não, mas também não precisa se transformar num casamento.
- Ok. Vou te levar em casa.
- ...

Ainda no estacionamento do prédio dele se abraçaram, choraram, pediram desculpas e subiram novamente para dormir abraçados sem dizer palavra.

Passaram um ano às voltas com tais questões: ele a pedindo em casamento periodicamente acreditando que a venceria pelo cansaço e ela se esquivando como podia sem magoá-lo. As alianças que ele comprara começavam a ficar cansadas e opacas...

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Aclive / Declive

- Rasgue a minha alma, a minha calma. Transtorne o meu tédio, o meu sexo. Não me deixe dormir. Me hipnotize. Escravize. Me queime numa fogueira santa. Faça de mim a sua via crúcis. Quero ser o próprio anti-cristo. E depois de tudo me deixe largada no chão, abandonada por cinco instantes. Em seguida me dê a proteção dos seus braços. A sua voz-calmante. Gosto de me sentir a última e a melhor das mulheres.



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Depois não querem que eu fique metida, olha só o selo que a Mila me deu!

Obrigada, d. Mila. :) É um dos selos mais lisonjeiros que recebi até hoje.
E ele vai para:

sábado, 29 de março de 2008

Dos casos mal resolvidos



Parte I

Ela: 19 anos. Ele: 37. Conheciam-se desde sempre. Eram vizinhos. Simpatizavam um com o outro. E parecia ser só isso até ele falar mais que o clássico: "olá, moça. Tudo bem?". E dizer, sem nenhuma introdução ou eufemismo:
- Nunca mais vi aquele teu namorado ir à tua casa. Você está sozinha? O que acha de sairmos?
Por aquilo ela definitivamente não esperava. Embora soubesse que sempre que o sabia por perto, colocava o seu melhor vestido. O mais esvoaçante. Para combinar com os cabelos soltos.
Enrubesceu.

- Isadora?
- Desculpa... é que me pegaste de surpresa.
- Essa era a idéia. O que me dizes? Podes me responder depois, se preferir.
- Depois quando?
- Me dá teu telefone e eu te ligo mais tarde pra saber a tua resposta.
- Ah, então eu tenho prazo...
- É, eu não sei esperar.
- Quer dizer que se eu te der um não será o único?
- Você fará isso?
- Preciso pensar. E ir agora.
- Pense.
Aproximou-se olhando-a nos olhos profundamente. E dirigiu-se aos seus lábios, ela ainda sentiu o hálito dele e fechou os olhos. Beijou-lhe a face. Não pôde disfarçar o ar frustrado e se foi.

Naquele mesmo dia Isadora tocava a campainha do apartamento dele, ansiosa e nervosa. Lucas abriu a porta com um sorriso que a fez tremer. Pegou-a pela mão e a fez entrar. Encostou-a contra a porta e a beijou sofregamente.
- Eu não aguentava mais te esperar. ..
- Vejo que você fez uma superprodução... frios, vinhos, flores...
- Você não merecia menos que isso. Além do fim do tempo que esperei por você precisar ser comemorado em grande estilo.
Serviu-a de vinho. Riram, gargalharam, falaram de tudo e de nada. A noite apenas começara...

quarta-feira, 26 de março de 2008

Espectadora de ilusões

Adorava os momentos de ócio, quando conseguia ficar com os pensamentos totalmente desertos, com o corpo inerte e os ouvidos moucos. Só os olhos não paravam sua atividade. Admirava hipnoticamente detalhes que passavam despercebidos nos momentos de pressa. Tudo parecia dançar coreografadamente. A fumaça dos incensos, a sombra da vela projetada na parede, a cortina... E ela, uma espectadora. Sempre fora um tanto voyeur. Cansara de ir a parques, sentar em um banco à sombra e observar tudo. O olhar de cada casal desgastado que esperava o filho ir correr com o cachorro da família para trocar farpas e olhares reprovadores. As mãos dadas de um casal adolescente que acredita ser aquele o último amor para todo o sempre. As ilusões eram o que ela mais gostava de observar. Uma criança conversando com um gato, por exemplo, a deixava arrepiada. Um casal de namorados escrevendo seu nome numa árvore para a posteridade era uma de suas cenas favoritas. Ilusões. As ilusões são belas. Belas e cruéis.

Já estivera daquele lado. Sabia a verdade: a vida é feita de fases. E uma delas é a da ilusão. Vivia agora a do desencanto. Do ceticismo. Só não sabia o que era mais sofrido: um sofrimento atroz, pago à vista, ou aquele parcelado de forma vitalícia. Chegou à conclusão de que já fora mais feliz e foi escrever seu nome em uma árvore para os casais apaixonados que fossem fazer o mesmo notassem o quanto eram felizes por terem um ao outro.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Errante

- Estive pensando no quanto eu sou pretensiosa em achar que mereço um homem como você.
- Que bobagem. Se estou aqui é porque acho que você me merece.
- Isso porque você desconhece a minha história. Os detalhes dela.
- Eu sei do seu passado e isso incomoda muito mais a você do que a mim.
- Eu sou uma errante...
- Você foi. Foi uma errante, não é mais.
- Passei por braços que nem lembro. Sou incapaz de saber precisamente com quantos homens fui pra cama. Isso não te maltrata?
- Não. Só me faz sentir mais especial.
- Explique.
- Ora, você teve tantos homens e parou em mim. Como não me lisonjear?
- E quem disse que eu parei?
- A sua alma confidenciou à minha num dos meus sonhos.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Constatação


- Quanto mais eu conheço os homens, mais gosto de ser mulher - e hetero. Posso comê-los com ou sem acompanhamentos, mas sem talheres, com certeza.

domingo, 16 de março de 2008

Desafio


- Decifra-me ou me entrego às traças.
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Tela: Sem título, de Salvador Dalí, 1954.
(Obrigada, Bel. :) )

sábado, 15 de março de 2008

A(s) face(s)


Aquela não era ela. Nunca fora, nunca seria. Passava por boa esposa, mas não suportava a voz daquele homem asqueroso. Sabia que ele a procuraria à noite e tomou uma decisão. Deixou a máscara de boa dona de casa, mãe exemplar e fugiu com o dono da venda ao lado. Foi então que notou que já não tinha face, a máscara ficara por tanto tempo colocada sobre seu rosto que já se tornara dela.
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No meio do caminho pediu desculpas ao amante e voltou para casa se esforçando para chegar antes do marido notar sua ausência e com os sapatos na mão para não acordar os filhos.
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Queridos, peço perdão pela ausência, ando com problemas com a internet (foi um milagre eu conseguir postar, vinha tentando há dias), com muito trabalho e muito estudo. Tenho lido alguns dos blogs que sempre li, mas nunca dá tempo de comentar. :( Aparecerei sempre que possível.