sexta-feira, 7 de março de 2008

Semana da Mulher


Tela: Nude. Pierre-Auguste Renoir. 1876.

"O que é ser mulher? Às vezes me perguntam isso em entrevistas e fico inclinada a responder que é nascer com cromossomos XX, mas não é esta a resposta que o entrevistador espera, é preciso entrar no espírito do debate, e responder que ser mulher é... ah, não consigo.

Bem que tento entrar no clima do Dia Internacional da Mulher, mas esta data me emociona tanto quanto o Dia da Árvore. Um dia especial para refletir sobre nossa condição? Ora, não faço outra coisa o ano inteiro!

Gosto muito de ser mulher mas não acho que sejamos mais especiais do que os homens. Ou mais maltratadas do que eles. Há gente feliz e infeliz dos dois lados do ringue. E se temos que lutar por melhores salários, mais segurança, uma vida mais digna, isso tem que valer para todos – que seja o dia internacional do ser humano, e não o dia internacional da choradeira.

É claro que ainda há discriminação. Foram séculos de hegemonia masculina e isso não se muda do dia pra noite – e olha que em 50 anos mudou coisa demais. Voto, pílula, faculdade, independência financeira, liberdade sexual. Há mais ainda para ser conquistado, e será. Mas quem vai ajudar as mulheres são elas próprias, principalmente porque somos mães: mães dos futuros políticos, mães dos futuros genros de nossas filhas, mães dos futuros patrões delas, e mães delas mesmas, as futuras mulheres que queremos ver mais realizadas e respeitadas. A responsabilidade é toda nossa. Se acertamos ou erramos, se ganhamos mais ou ganhamos menos do que os homens, se somos tratadas com carinho ou com violência, tudo é decorrência das nossas escolhas e atitudes – e das nossas omissões.

Num mundo com tamanha desigualdade social, claro que nem todas as mulheres têm esclarecimento e poder para assumir sozinhas seu destino. Então briguemos por elas, como fizemos quando a argeliana Amina foi ameaçada de ser apedrejada por ser mãe solteira. O governo africano recebeu uma avalanche de cartas pedindo sua 'absolvição', e deu certo. Aquilo foi quando? Julho, setembro, novembro? Foi feito o que tinha que ser feito na hora em que se fez necessário. É assim que funciona. Fazemos nossa parte todos os dias de março, abril, agosto, dezembro, atendendo as demandas da vida, como árvores que somos, forças da natureza que não
precisam de uma data única para lembrar aos outros nossa importância."

(Martha Medeiros)

segunda-feira, 3 de março de 2008

Não à filantropia


A angústia que a tomava era tão grande que ela pensou que só a euforia fosse capaz de calá-la. Seu estilo sóbrio, entretanto, não combinava com sorrisos bobos e sem razão. Seus sorrisos eram seus tesouros, não os saía distribuindo por filantropia. Achava até que tinha ciúme dos seus dentes, era uma boa explicação para justificar a resistência em mostrá-los. Decidiu ser outra naquele dia. Pôs o vestido com cheiro mais forte de naftalina, aquele que há muito não usava por achar a cor alegre demais. Foi ao lugar mais ensolarado, sem os óculos escuros dessa vez, e soltou a gargalhada mais forte e sonora que conseguiu, fazendo até eco dentro dela.

Voltou para casa cabisbaixa amaldiçoando o vestido, a gargalhada e a naftalina que irritava o seu nariz, vermelho de tanto coçar. Definitivamente não nascera para a alegria, sabia disso. Mas achou que não custava refazer algumas de suas certezas. Foi a um bar e reafirmou outra certeza, vodka era mesmo uma merda.

sábado, 1 de março de 2008


- Decidi me mudar.
- Mas acabamos de comprar essa casa, querido.
- Eu sei, nem estou falando dela exatamente.
- E fala do que então?
- Do seu coração, quero sair dele. É pequeno demais, me deixa claustrofóbico. Abre a porta pra mim?

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Mudança


- Eu já fui intransigente demais com você. Me irritava com a sua voz. Com a sua barba por fazer. Com o modo como você fala ao telefone. Com o seu beijo. Com a sua expressão de desdém. Com o seu francês bem falado. E até com a cor das suas camisas. Hoje eu só não te quero mais. Nem pra treinar o meu francês mal(...)dito.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Paredes imaginárias


Fora educada para ser uma lady. Pernas cruzadas ao sentar. Guardanapo no colo. Movimentos leves e graciosos. Sem risadas extravagantes... Sempre achara tudo aquilo um tédio e reprimia os bocejos que aqueles jantares monótonos lhe provocavam. O que queria mesmo era se atirar em queda livre sem pára-quedas. Jogar-se nos braços da luxúria sem preocupações com a etiqueta. Amar, amar perdidamente como Florbela, ainda que com a tristeza que lhe é peculiar. Ou principalmente pela tristeza. Dançou pelo quarto como uma plebéia, simulando um par alto e robusto a guiá-la. Queria ter a opção de dois caminhos como Chapeuzinho Vermelho, escolheria, por certo, o das flores. Ou ainda adormecer por cem anos, como a outra. Tranças iguais as de Rapunzel seriam úteis para uma fuga daquelas paredes cinza-masmorra. Desceu à praia. Mirou-se na infinitude da paisagem. E imaginou quão imensa era também sua insatisfação, sua dissimulação. Voltou para casa. O jantar estava servido. Tinham visitas.
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O Vicente e a J.S., me deram o Selo Astrobaldo de Qualidade: Blog Recomendado. Obrigada, queridos.
Eu indico para o selo:
- Pushoverboy, do Bloco de Notas;
- Mila, do Caixa de Sapato;
- Jr., do Gamella;
- Gabriela, do Ma Passion Rouge; e

sábado, 23 de fevereiro de 2008


- Você lembra do quanto eu relutei em casar com você?
- Lembro. E eu louco indo a sua casa todos os dias. Já andava com as alianças permanentemente nos bolsos. O que te fez mudar de idéia?
- Eu não mudei de idéia, você me venceu pelo cansaço.
- Eu fui tão insistente assim?
- Foi, e te agradeço por isso eternamente. Se não fosse você, eu não me sentiria a mulher mais feliz do mundo no fim da vida.
Beijaram-se e saíram de mãos dadas para preparar o jantar.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Das entrelinhas

Querido meu,

Você me fez mais feliz do que eu julgava ser possível. Entretanto, já não consigo conviver com o seu olhar indiferente, com o seu amor em putrefação. Não me despedi pessoalmente porque eu sei que não conseguiria. Mas escrevo essa carta com sangue, sangue que verte do meu peito aberto, com o coração exposto, pulsante. Coração que você guardou em uma caixa junto com coisas importantes e que agora devolve ao lugar sem fechar a ferida. A cicatrização é lenta, eu sei. Mas eu te privo de acompanhar esse processo doloroso. Vou-me. Para sempre. Para o mundo. E espero nunca mais o encontrar.

[Pegue-me no colo, diga que ainda me ama e que me quer aqui, junto de você, para que embalsamemos o nosso amor]

Adeus,

F.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Despedida



- Eu não estou chorando por você.
- Por que estás chorando então?
- Pelo amor que te dei.
- Se eu pudesse devolvê-lo pra te ver melhor...
- É por isso que eu vou embora. Você só pensa em devolvê-lo, não em retribuir.
- Eu nunca enganei você.
- É verdade. Quem me enganou fui eu.

Bateu a porta e se foi para sempre com o coração entre os dedos, sangrando.
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Ouvindo Luzes, Arnaldo Antunes.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Ego

Parte 5 ou Última Parte


- Alô, Carla?
- Oi, Júlia. Nossa, você me ligando? Que coisa mais... atípica.
- É verdade. É que amanhã é sábado, achei que a gente podia marcar alguma coisa à noite.
- Ah, sim, claro. No que estás pensando?
- Pensei em um bar novo que abriu, várias pessoas já me falaram bem dele... não lembro o nome...
- Por mim tá tudo certo. Queres que eu passe pra te buscar?
- Ah, quero sim... não queria ir de carro sozinha.
- Certo, passo aí às nove. Ok?
- Ok... Carla, você pode levar quem você quiser, viu?
- Hum... pode deixar, entendi. Vou convidar o Pedro.
- Pedro? Que Pedro? Ah, o Pedro... nem lembrei dele. É, convida.
- Júlia, Júlia... tu és mais transparente do que imaginas. Até amanhã.

O que ela quis dizer com isso? Será que dei muita bandeira?

***

Quase dez da noite e nada de ele aparecer... Júlia já tinha decidido não esperar mais que ele viesse quando notou Carla olhando risonhamente sobre seu ombro. Era ele. Sentiu suas mãos esfriarem e seu rosto se aquecer.
- Olá, garotas.
Cumprimentou as duas com a mesma simpatia, o que a melindrou. Estava acostumada com exclusividade. Ele agia com tanta naturalidade, de modo tão espontâneo que a desanimou. Ela mal conseguia falar duas frases sem se enrolar com os pensamentos, gaguejar e ele ali, inteiro, como quem vai à padaria e pergunta o porquê do aumento de preço do pão francês. Depois, mais relaxada com as diversas doses de cuba libre que bebera ao longo da noite, já conversava animadamente com os dois. Carla, notando que sua presença já não era necessária, forjou um telefonema com um problema que exigia urgência para ser resolvido.

- Mas eu estou de carona com você, tenho que ir também.
- Eu posso levá-la. Escolha: ou foge de mim novamente ou fica mais algumas horas comigo aqui. Prometo que você chegará inteira em casa.
- Ok. Eu fico. Boa sorte, Carla. E obrigada.
- Estás me devendo uma. Boa noite pra vocês.

***
- Então... a sua fama de devoradora de homens procede?
- Claro que não. Só acho que os homens são presas fáceis. E isso os torna perecíveis.
- Você já esteve com todos os homens do mundo?
- Não, mas tenho corpus suficiente pra fazer uma afirmação categórica.
- Cuidado, na vida amorosa, nada é tão estatístico assim.
- Até hoje não falhou.
- Então um brinde a hoje.

***
- Não acha melhor avançar os sinais a essa hora? É tarde...
- Fique tranqüila. Você está segura comigo.
- Esse não é o caminho da minha casa.
- Sigamos o exemplo de Chapeuzinho Vermelho e vamos pelo caminho mais bonito.
- E você é o lobo mau?
- Talvez esse papel lhe caia melhor.
Pedro sinalizou e entrou num motel.
- A suíte presidencial, por favor.
Olhou para Júlia. Ela estava imóvel, sem esboçar reação nenhuma.

Ao entrar no quarto, ela analisou a decoração impecável do lugar.
- Se você me levasse a um motel de beira de estrada e pedisse o quarto mais barato, eu daria pra você do mesmo jeito.
Empurrou-o com força sobre a cama e começou a se despir. Ele a fitava com olhos faiscantes.
Beijou-o vorazmente. Abriu a blusa de Pedro com a habilidade de um torturador profissional: lenta e provocativamente. Botão a botão, seguindo o caminho aberto pela blusa com a língua. Sentia o peito dele arrepiado, com os pêlos eriçados. Soltou o cinto, livrou-o das calças e engoliu seu sexo com vontade. Pedro gemia e puxava seus cabelos com força, obrigando-a a olhá-lo.

Exploraram cada canto daquela suíte, vasculharam cada centímetro do corpo um do outro. Duas horas depois, se atiraram na cama, exaustos.
Olharam-se. Riram.

- Eu não disse que os homens são presas fáceis?
- Disse, mas você passou uma semana tentando marcar algo com amigos em comum em lugares que você sabe que eu freqüento, mas que por exatamente uma semana eu fiz questão de não freqüentar.
- Ah, é? E por quê?
- Porque eu gostei de saber que você estava se esforçando pra que acontecesse um encontro "casual".
- E não queria me encontrar?
- Claro que queria. Mas queria mais ainda que você notasse que eu não sou o tipo de homem-tapete com que você está acostumada.
- Hum...
- E amanhã? Como vai ser?
- Amanhã... boa pergunta.
- Eu posso te ligar?
- Deixe-me pensar...
- É, acho melhor retirar a pergunta.
- Eu preciso dizer que quero que você me ligue amanhã? Achei que já havia deixado claro.
- Precisa sim. Com todas as letras.
- Pedro, eu quero que você ligue amanhã.
- Não sei, acho que estarei meio ocupado.
- Engraçadinho...

***

- Obrigada. A gorjeta.
Fecha a porta e fita o buquê com vinte e quatro rosas vermelhas.

Pela melhor noite da minha vida (não, eu não digo isso a todas).
O que você vai fazer hoje à noite?

Muitos beijos,
Pedro.

Júlia sorri e pega o telefone para cancelar o jantar com uma amiga que marcara para esta noite.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008