Lendo A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, dentre tantas reflexões magníficas, tocantes e de profunda poesia, eis que encontro um trecho fascinante sobre o ato de escrever. Quem escreve sabe da dificuldade que é teorizar sobre isso. Kundera, como o fez em todo o romance, se mostrou um gênio ao tratar desse assunto. "[...] os personagens não nascem de um corpo materno, como os seres vivos, mas de uma situação, uma frase, uma metáfora que contém em embrião uma possibilidade humana fundamental que o autor imagina não ter sido ainda descoberta, ou sobre a qual nada ainda foi dito de essencial.
Mas não se diz sempre que o autor só pode falar de si mesmo?
Olhar o pátio com angústia e não conseguir tomar uma decisão; [...] trair e não poder parar na estrada tão bela das traições [...]: eu próprio conheci e vivi todas essas situações; de nenhuma delas, no entanto, saiu o personagem que sou, eu mesmo, no meu curriculum vitae. Os personagens de meu romance são minhas próprias possibilidades que não foram realizadas. É o que me faz amá-los todos e temê-los ao mesmo tempo. Uns e outros atravessaram a fronteira que eles ultrapassaram (fronteira para além da qual termina o meu eu). Do outro lado começa o mistério que meu romance interroga. O romance não é uma confissão do autor, mas uma exploração do que é a vida humana, na armadilha em que se transformou o mundo."
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Conselho: quem ainda não leu, leia. Restam menos de cem páginas para que eu acabe a leitura e já me sinto uma viúva em luto fechado pelos personagens apaixonantes e pelo narrador mais reflexivo que já conheci.
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Ouvindo Valsa Brasileira, na voz de Luiz Melodia.








