quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

A Insustentável Leveza do Ser

Lendo A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, dentre tantas reflexões magníficas, tocantes e de profunda poesia, eis que encontro um trecho fascinante sobre o ato de escrever. Quem escreve sabe da dificuldade que é teorizar sobre isso. Kundera, como o fez em todo o romance, se mostrou um gênio ao tratar desse assunto.

"[...] os personagens não nascem de um corpo materno, como os seres vivos, mas de uma situação, uma frase, uma metáfora que contém em embrião uma possibilidade humana fundamental que o autor imagina não ter sido ainda descoberta, ou sobre a qual nada ainda foi dito de essencial.

Mas não se diz sempre que o autor só pode falar de si mesmo?

Olhar o pátio com angústia e não conseguir tomar uma decisão; [...] trair e não poder parar na estrada tão bela das traições [...]: eu próprio conheci e vivi todas essas situações; de nenhuma delas, no entanto, saiu o personagem que sou, eu mesmo, no meu curriculum vitae. Os personagens de meu romance são minhas próprias possibilidades que não foram realizadas. É o que me faz amá-los todos e temê-los ao mesmo tempo. Uns e outros atravessaram a fronteira que eles ultrapassaram (fronteira para além da qual termina o meu eu). Do outro lado começa o mistério que meu romance interroga. O romance não é uma confissão do autor, mas uma exploração do que é a vida humana, na armadilha em que se transformou o mundo."
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Conselho: quem ainda não leu, leia. Restam menos de cem páginas para que eu acabe a leitura e já me sinto uma viúva em luto fechado pelos personagens apaixonantes e pelo narrador mais reflexivo que já conheci.

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Ouvindo Valsa Brasileira, na voz de Luiz Melodia.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Dois pesos, duas medidas

- Você me olhava diferente antes.
- Diferente como?
- Você olhava pra mim. Essa é a diferença.
- Ah, você é muito dramática.
- Você está fria.
- Aprendi a ser prática, só isso. Não tenho paciência pra melodramas. Deve ser por isso que nunca assisti novelas mexicanas.
- Você não tem mais pudor. Olha com desejo pra outras mulheres na minha frente.
- Meu amor, entenda... somos seis bilhões de pessoas no mundo, eu posso sair com muitas delas, mas com quem eu passo todas as noites?
- Com você mesma. Com sua solidão acompanhada. Com seu autismo compartilhado. Cansei de falar sozinha. Vamos fazer uma coisa: você não precisa mais passar todas as noites comigo. Passe só metade delas. As outras eu pretendo passar com a minha terapeuta que me dá mais atenção do que você.
- É evidente! Você paga pela atenção dela. E a mim você só cobra.

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Edu Guimarães e eu criamos um blog conjunto para que tenhamos liberdade de destroçar, "destruir" e bagunçar a idéia do outro. A proposta é um começar um texto e o outro ir em frente. Vamos ver no que dá, por enquanto está Um a Um.

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O Vicente me indicou para dois selos (obrigada, meu querido!) - Blog Parada Obrigatória e Esse blog é show de bola - e agora eu preciso indicar mais alguns detentores de tais títulos.
E Johny Farias me indicou ao selo Eu tenho um blog de elite. Vamos aos indicados aos selos:

Drapetomania, da Fê Probst, indicada aos três selos;
Estalar os dedos, da Morganna, também aos três;
Cena 7, da Lucia, aos dois primeiros;
Bloco de Notas, dele mesmo, aos três; e
Sanctuarium, do Edu, também aos três.

Tentei não repetir os selos que já tenham...

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Concerto


Ele sempre tivera uma queda por musicistas. Achava um charme mulheres tocando violoncelo, harpa então, era de delirar. Tinha sonhos eróticos com mulheres e cordas. Fazia a comparação padrão e nada criativa das curvas femininas com as dos violões. Lera em algum lugar, talvez na Folha de São Paulo, uma pesquisa feita por cientistas que chegou à conclusão que mulheres com quadris largos, cintura fina e coxas grossas eram melhores reprodutoras, têm filhos mais inteligentes. Algo sobre nutrientes importantes para o desenvolvimento do cérebro se concentrarem nessas partes. Não dera atenção aos detalhes, apenas à base da notícia. Pretendia ser pai. Não logo, mas quando quisesse, lembraria dessa pesquisa.
Assistindo aquela orquestra de cordas sua imaginação se centrou em uma das moças. Os cabelos claros, o vestido preto... a sobriedade atraente que compunha o estilo dela. Estava hipnotizado. Mal ouvia a música. A atenção que ela dava ao regente era algo que ele aspiraria se tivesse alguma chance com aquela mulher.


Ela, nua, com os cabelos presos, olhava-o, provocante. Sua gargalhada era musical, lembrava uma sinfonia qualquer dos grandes mestres. Teve a noite mais luxuriosa de toda a sua vida. A mulher era uma máquina. Fazia absolutamente tudo como uma profissional. Com a mesma habilidade com que acariciava as cordas. Horas depois, com o esteriotipado cigarro de depois entre os dedos, viu-a, ofegante, chamá-lo de "o melhor amante do mundo".


Foi desperto de seus pensamentos pelos aplausos, viu sua musicista sumir detrás da cortina vermelha e as luzes fortes derreterem seus sonhos fotofóbicos de quarto de motel com meia-luz.


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A propósito, a pesquisa existe mesmo. Ei-la.

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Ouvindo A Lista, Oswaldo Montenegro.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Voyeur


Ela sentia os olhares dele quando parecia distraída. Analisava-a milimetricamente. Já o vira entre frestas e portas entreabertas, sempre observando com um esforço sobre-humano de ser discreto.
Ele devia ter, se muito, 16 anos e sua admiração envaidecia muito a balzaquiana. Pensava na quantidade de meninas lindas, ninfetas, que ele devia cruzar por dia, mas era por ela que seu queixo caía. E ela sabia usar isso.
Namorava o pai daquele rapaz há, no máximo, dois meses. Não sabia com certeza, mas se tinha certeza de algo era de que desde o primeiro dia em que estivera lá, ele, o filho, desenvolvera uma tara por ela. Algo que só mesmo um pai não perceberia.
Gostava de instigá-lo. Já deixava frestas para ele. Nunca fechava as portas. Quando se sentia observada, sempre mexia nos cabelos, ajeitava o decote.
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Aquele ar de nerd, com os óculos na ponta do nariz, os cabelos bem penteados... nunca fizera seu tipo. Nem nos tempos de escola. Mas algo nele a atraía. Possivelmente a virgindade. Seu pai havia confessado isso certo dia, no jantar em que a pedira em casamento.
Nessa mesma noite, ao chegar em casa, o pai deu a notícia do noivado e os olhos do rapaz se apagaram. Olhou-a com um desespero comovente. Esperava dela uma negação daquilo. Com um meio sorriso, os dois subiram para a comemoração. Nas mãos dela uma garrafa de champagne e duas taças, além do anel de noivado, que reluzia, cegando-o. Desnorteado, olhou os livros de matemática sobre a mesa de jantar já parceiros da louça e dos talheres.
Diante da porta entreaberta, viu seu pai e a futura madrasta na melhor parte da comemoração. Tocou-se, imaginando a cena com uma troca de personagem.
Ficou paralisado quando viu o olhar da madrasta em sua direção com um sorriso.

No café da manhã do dia seguinte, os dois estavam à mesa. Frente a frente. O voyeur mal conseguia levantar os olhos.
- Você gostou do que viu ontem?
- ...
- Não se preocupe, vou me casar com seu pai. Ficaremos bastante tempo sozinhos aqui. Ele trabalha muito, você sabe. Posso te ensinar umas coisinhas. Mas pra isso você precisa me prometer que se guardará pra mim. Promete?
- ...
- Promete?
- Prometo.
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Ouvindo Pra ser sincero, Marisa Monte.


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Acasos programados


Todos os dias ela cruzava com ele no elevador. O bom dia com aquela voz grave era quase uma carícia. Se esforçava para chegar sempre na mesma hora. Exatamente. Notara a pontualidade dele. Quando se atrasava e não tinha aquele cumprimento pela manhã, seu dia era um desastre. O mau humor a dominava. Tudo parecia dar errado.
Ela o desejava de um modo que a assustava.
Um dia leu no crachá: Arthur. O nome combinava com ele. Forte.

Naquele dia ela estava decidida a iniciar uma conversa com ele. No hall, esperando pelo elevador, ela, ansiosa, olhava em volta. O elevador já descera diversas vezes. Ela deixava a porta se fechar.
Quando, já atrasada, desistiu. Ao apertar o botão do seu andar, ouviu passos apressados. Segurou a porta. Era ele. Olhou-a com um sorriso, ajeitando a gravata. E além do tradicional bom dia ganhou um obrigado.

Ela balbuciou centenas de frases possíveis. Desde comentários sobre a gravata, o tempo, o tom do piso do elevador até considerações sobre a política externa de um país do sudoeste da África. Nada parecia servir. Ele desceu, como de costume, no décimo segundo andar e se despediu com um até logo sorridente.

Como todas as noites, ao chegar em casa, despiu-se. Olhou-se no espelho e imaginou aquelas mãos grandes envolvendo-a. Aqueles lábios cheios beijando seu pescoço enquanto seus cabelos são levemente puxados para trás. Deita-se. Fecha os olhos e se toca. Imagina a respiração forte acompanhada de sussurros ininteligíveis em seu ouvido. Geme alto e se sente esmorecer.

- Bom dia.
A porta do elevador se fecha.
É... mais um dia sem mau humor, pensa ela, analisando palmo a palmo as costas de seu desconhecido preferido.


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O fofíssimo do Vicente, do Palavras quase ocultas de um ser real..., me presenteou com o selo É um blog muito bom sim senhora. Obrigada, mocinho. Mesmo. :)


Pra variar, os mesmos critérios: blogs que eu gosto e que ainda não tenham o selo. Meus cinco indicados são (alguns dos que eu selaria já estão contemplados entre os indicados do Vicente):


Lucia, do Cena7;
Fê Probst, do Drapetomania;
Morganna, do Estalar os dedos;
Luca, do Lunaticidades; e
Edu, do Sanctuarium.

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Ouvindo Eu te amo, Chico Buarque.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Das mulheres que só dizem sim

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Tentavam várias fantasias para dar emoção ao casamento que já durava oito anos. Ela já se vestira de colegial, garçonete, enfermeira... entretanto, a que ela mais gostava era a de prostituta. Não só por tudo que a fantasia permitia sem que o marido a julgasse, mas porque ela, secretamente, tirava a fantasia somente dias depois. Nas noites de reuniões intermináveis do marido no escritório, ela se prostrava em uma esquina qualquer e saía com desconhecidos. Não se permitia repetir clientes, por isso sempre fazia ponto em uma esquina diferente. Cobrava valores muito baixos, arrancando olhares surpresos dos pagantes. Gostava de se sentir uma puta barata.

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Ouvindo Quarto de Dormir, Arnaldo Antunes.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Papo de Mulher

- Acredita que ele reclamou do meu decote?
- Ah, mas isso é de praxe...
- De praxe nada! O meu que não se meta a escolher as minhas roupas!
- Ah, eu não sei se isso é uma regra pra homens, mas o meu é um babaca.
- E por que você está com ele?
- Acho que tenho uma quedinha por babacas.

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Ouvindo Boca da Noite, Ceumar.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Altruísmo Doloso

Tela: The Lovers, de René Magritte.
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Ele a beijou como se fosse a última vez. E era. Olhou-a, despedindo-se. Era bem assim que ele imaginava o fim: poético. O amor era grande demais, já não cabia nele. Não conseguia conviver com isso. Era maior que ele, transbordava. Atirou-se do décimo sétimo andar com os olhos fechados. A queda livre era a sua liberdade do sentimento imenso que o sufocava. Talvez agora ele ficasse bem, pensou ela, ao entrar no elevador.
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Ouvindo Refazenda, nas vozes de Djavan e Letícia Sabatela (adorei, Edu!)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Oferta



- Você me quer?
- Quero. Muito.
- Então me coma sem educação, sem modos, esqueça a etiqueta. E diga, depois de tudo, que não quer sobremesa, que só quer repetir o prato principal...


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Vamos às indicações para o selo "Este blog vale a pena conferir" que ganhei, com honra, do Vicente, do Palavras quase ocultas de um ser real... (obrigada, moço!). Utilizarei o mesmo critério de sempre: escolherei os blogs que mais visito, gosto e que não têm o selo.

Mila, do Caixa de Sapato;
Sollers, do Do amor, laico impropério;
B., S. e G., do Sobre Mortes;
Edu, do Sanctuarium;
Camila, do Belas Coisas Simples; e
Gabriele, do Strawberry Fields.

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Acho que vou aderir ao bom hábito de colocar a música que estou ouvindo no momento da postagem:
Cicatrizes, Roberta Sá, com participação especial de MPB4.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Ton sur ton



Ela terminara o namoro há meses e ele ficara (e continuava) inconformado. Agia como um doente. Sorrateiramente a seguia, espionava, perseguia. Ela, por sua vez, tinha medo dele. Achava-o capaz de fazer com ela as piores perversidades. Vivia sobressaltada. Sempre esperando sofrer uma tentativa de agressão ou algo que o valha. Não dormia direito, tinha sonhos terrivelmente violentos com seu algoz. Aquilo só podia ser orgulho ferido, era doentio demais para ser amor, pensava. As olheiras, as roupas nitidamente sujas, o mau cheiro, os quilos perdidos. Ele devia estar há dias sem tomar banho. E isso só a assustava mais.

Em casa, após um dia de trabalho, no começo da noite, soa a campainha de seu apartamento. À espera de uma amiga, enrola-se na toalha e abre a porta.
Depara-se com aquela figura medonha, pavorosa. Tenta fechar a porta, mas ele a força e entra. Ensaia um grito, ele a impede.
Ela nota, então, que ele esconde algo na mão esquerda, nas costas. Desvencilhando-se daquele braço forte, se atira sobre o ex-namorado com uma faca e a enterra em seu ventre repetidas vezes, até ficar ofegante, cansada.

À mão esquerda do corpo sem vida, caído, uma rosa vermelha se revela e se confunde com o vermelho do sangue que se esvai.